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Escolas para o século XXI

Escolas para o século XXI

Ainda há poucos dias ouvia com muito interesse as sábias palavras do professor José Pacheco (pedagogo, fundador da Escola da Ponte e uma figura incontornável para quem estuda e pesquisa novas possibilidades de educar) no podcast Conversas Daninhas, concordando que, de facto, a maioria das escolas de hoje são compostas por alunos nascidos no século XXI e professores do século XX, mas mantendo ainda lógicas de funcionamento e de ensino do século XIX.

E que, apesar de termos como ultrapassada a ideia de que educar tem sobretudo a ver com a velha ideia de instrução (em que o douto professor fala e a turma atenta obedientemente), e sendo hoje consensual que o foco deve estar na aprendizagem (e que, portanto, a primazia deve ser dada ao aluno), ele afiança que nos devemos centrar mais ainda na relação e na comunicação, não apenas entre professores e alunos, mas também entre a escola e o Mundo.

Nem a propósito, leio uma notícia sobre um jovem português, chamado Guilherme Ramos, que por sua própria iniciativa passou dois anos letivos a cuidar de um espaço verde na sua escola secundária e que, neste regresso às aulas, foi surpreendido pela total destruição do seu oásis de biodiversidade. Ao que parece, alguém na Escola Secundária D. Pedro V em Lisboa, resolveu cortar toda a vegetação com uma roçadeira durante as férias escolares, terraplanando o talhão.

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O jovem, que por compromisso ecológico e interesse científico, tinha limpado um canto abandonado da escola com quase quinhentos metros quadrados, para proteger plantas espontâneas autóctones de grande valor, fez caminhos em pedra com as suas mãos, instalou um depósito de água da chuva em charco, para concentrar água, convocou colegas para participar da preservação do espaço, catalogou espécies botânicas e insetos em colaboração com plataformas científicas de renome e, com tudo isto, transformou um terreno baldio num laboratório de biologia ao ar livre e num projeto de aprendizagem e ativismo ecologista.

A escola, além de ter mostrado sempre uma relativa indiferença pela iniciativa do aluno, responde com a destruição do seu trabalho e com a razia completa daquele viveiro de biodiversidade (sem qualquer aviso prévio). Ora, quando pensamos na escola do século XXI e na importância de premiar a autonomia das aprendizagens, de estimular (em profunda relação com o nosso tempo) o compromisso com os desafios climáticos, e travar (pela via do entusiasmo) o combate à atomização, ao desinteresse existencial e ao esvaziamento das relações humanas na era da adolescência online, este exemplo da Secundária D. Pedro V é tudo o que não queremos. Que os nossos Guilhermes não percam a faísca e a força!

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