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Critiquem o SNS, pela vossa saúde

Critiquem o SNS, pela vossa saúde

Na política portuguesa há algo que não se pode fazer de maneira nenhuma: criticar o SNS. Quem critica a forma como o SNS é gerido ou os seus resultados é imediatamente acusado de uma de duas coisas: de estar a desrespeitar os seus profissionais ou de querer acabar com o acesso universal.

A sacralização do SNS não permite desvios: qualquer crítica ao modelo de gestão burocrático, à ministra ou aos resultados desse modelo é imediatamente tomada como um insulto aos seus profissionais ou uma ameaça à sua universalidade.

Sugerir mudar o modelo de gestão do SNS para algo mais eficiente, gerido pelos incentivos certos, imitando modelos que mostraram funcionar para melhorar a sua gestão (como o das PPP) ou servir melhor os utentes (como a ADSE) é imediatamente acusado de querer entregar o SNS aos privados. Andam tão preocupados em "não entregar o SNS aos privados", que não reparam que já lhes entregaram muitos dos seus médicos e pacientes, criando um sistema de castas onde só quem pode pagar tem verdadeiramente acesso a cuidados de saúde universais.

Como não se pode criticar o SNS nem retirar Marta Temido do altar, não se pode dizer que o sistema de gestão burocrático está a levar os seus profissionais ao esgotamento e a deteriorar os cuidados de saúde dos utentes. Também não se pode apontar que Portugal foi um dos países da Europa ocidental com maior mortalidade em excesso não covid durante a pandemia e que tudo isso pode derivar da rigidez do seu modelo de gestão e incapacidade de resposta.

Quem critica o SNS é imediatamente acusado de desrespeitar os seus profissionais ou de não querer um serviço universal de saúde. Ironicamente, é precisamente a falta de capacidade crítica e consequente abertura a novos modelos de operação que tem deteriorado as condições dos profissionais de saúde e a capacidade de o SNS garantir um acesso verdadeiramente universal a cuidados de saúde.

Por isso, é importante resistir ao condicionamento mental que muitos querem impor na discussão pública e criticar o modelo de gestão do SNS, a forma como os recursos humanos são geridos e os processos organizados. Pela nossa saúde, critiquemos o SNS.

*Economista e diretor-executivo do Instituto +Liberdade

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