Opinião

O regresso do carteirista invisível

O regresso do carteirista invisível

No mês passado, tivemos a maior inflação dos últimos 27 anos. Uma parte das pessoas que está a ler este texto não sabe o que é viver em inflação. A outra parte já se esqueceu. É por isso importante percebermos novamente o impacto que a inflação pode ter nas nossas vidas.

Viver com inflação alta é viver com incerteza. Os trabalhadores com salário fixo são, normalmente, os primeiros a sofrer. Sem capacidade de renegociar contratos perante um aumento do custo de vida, verão o seu salário encolher sem poderem fazer muito para o impedir. A confirmar-se um aumento inesperado da inflação, os trabalhadores voltarão a sentir o peso da austeridade, mas desta vez uma austeridade inflacionária semelhante à dos tempos dos governos de Mário Soares. Em vez de verem o seu salário a diminuir, verão aquilo que o seu salário pode comprar a baixar, o que vai dar ao mesmo em termos de qualidade de vida, mas é imune às reversões do Tribunal Constitucional.

A inflação é também uma má notícia para quem tem poupanças e não gosta de arriscar. Depósitos bancários irão perder valor com a inflação. Em mais uma ironia do destino, o país andou a usar dinheiro dos contribuintes para evitar que depósitos bancários fossem castigados no seu valor nominal e agora poderão vir a sê-lo na mesma no seu valor real por via da inflação.

Finalmente, existe ainda o risco para quem tem empréstimos de longo prazo com taxa variável. Se o BCE, como será de esperar, responder ao risco de inflação com uma subida das taxas de referência, podemos vir a ter aumentos elevados e repentinos nas prestações da casa.

Apesar dos 5,3% de inflação em Portugal e 7,5% na Zona Euro no mês passado, o Governo continua otimista, antecipando apenas 2,9% para 2022. Há bons incentivos para isso: inflações altas e "inesperadas" permitem a governos fazer brilharetes orçamentais quando as receitas aumentarem graças à inflação, mantendo fixa a despesa salarial acordada. O pior é que a legislatura não acaba aqui e com o PCP fora da solução de governo seis anos depois, os sindicatos poderão em breve acordar para o problema da perda real de salário.

*Economista e diretor-executivo do Instituto +Liberdade

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