Opinião

Progresso e inveja

Começou a corrida ao turismo espacial entre alguns multimilionários americanos, que competem entre si para perceber quem constrói o melhor foguetão e vende as viagens mais baratas. Alguns criticam esta corrida como um luxo desnecessário e um sinal de desigualdade que urge combater.

Afinal, com tantos problemas básicos para resolver, não será isto um desperdício de recursos que seriam úteis noutros lados? É possível que sim, mas não nos podemos esquecer que quase todas as inovações que hoje consideramos essenciais foram em tempos um luxo apenas acessível a alguns. As viagens de avião, os automóveis, os telemóveis, os computadores, todos foram lançados no mercado como produtos de luxo numa altura em que não existia tecnologia e escala suficiente para estarem acessíveis para todos. Todos foram lançados em alturas em que havia problemas maiores para resolver (ainda mais fome e pobreza do que hoje). Ainda assim, é inquestionável que valeu a pena investir naqueles produtos, porque vieram a tornar-se essenciais para a vida de todos, incluindo os mais pobres.

Esses produtos acabaram também por ter utilizações que ninguém sonhava que viriam a ter. Ninguém sonhava que o telemóvel, usado no princípio dos anos 90 por uma elite para falar ao telefone fora de casa, um dia iria ser usado para tirar fotografias, enviar dinheiro ou orientar-se no trânsito, tornando-se num bem essencial à vida de muitos, pobres e ricos. Nada disto era possível prever e nada disto teria sido possível sem aqueles que primeiro adotaram estes produtos e permitiram que ganhasse a escala que têm hoje.

Não sei o que acontecerá com o turismo aeroespacial. Esta corrida poderá trazer desenvolvimentos inesperado no transporte de passageiros e mercadorias. Da mesma forma que era impossível nos anos 90 perceber como seriam utilizados os telemóveis 30 anos depois, também hoje não sabemos de que forma a massificação da tecnologia ligada ao turismo aeroespacial irá melhorar a nossa vida no futuro. Até é possível que acabe por se revelar um fracasso, mas que não sejam a inveja e a indigência intelectual de alguns a impedir-nos de descobrir.

OEconomista e diretor-executivo do Instituto +Liberdade

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