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Agora é a Espanha. E nós!

Agora é a Espanha. E nós!

Nas duas últimas semanas, as taxas de juro para compra de títulos espanhóis foram subindo em flecha. O Citigroup já veio "prever" o abandono do euro por parte da Grécia para um espaço de tempo entre 12 e 18 meses, e afirmar que a Espanha e a Itália vão, provavelmente, precisar de "resgate" até final de 2012.

O retrocesso nas condições de vida dos espanhóis acelera-se, as comunidades espanholas, uma atrás da outra, não aguentam os défices que a crise lhes trouxe e solicitam apoios. Os problemas económicos, sociais e políticos do país vizinho podem gerar contextos muito delicados e perigosos para a Espanha e para a Europa.

O Banco Central Europeu (BCE) - cuja atuação tem sido a de continuar a alimentar o processo especulativo e a própria crise - perante o agravar dos problemas em Espanha e em Itália, já "admite" reforçar o fundo de resgate e coloca a "possibilidade" de os fundos de resgate comprarem dívida pública no mercado. Olhando o rumo que o BCE tem seguido, isso pode não significar mais do que um encanar a perna à rã.

Entretanto, utilizar ou não a designação e a formatação de um "resgate" é em grande medida indiferente, pois as políticas que estão no terreno a ser implementadas, lá como cá, têm o mesmo cariz e conduzem à destruição de emprego, à fragilização da economia, ao aumento das desigualdades, ao empobrecimento, à degradação da democracia.

O peso da Espanha ou da Itália pode propiciar-lhes condições menos leoninas do que as aplicadas à Grécia ou a Portugal na definição dos hipocritamente designados planos de ajuda, mas o efeito positivo será apenas pontual dado que a crise é sistémica. Não surgindo alternativas políticas sérias, a contaminação será geral e chegará aos países do centro e do norte da Europa.

No imediato, os dados que vão sendo conhecidos apontam para a inevitabilidade de os problemas de Espanha se refletirem negativamente na situação de Portugal, desde logo, porque se trata do nosso vizinho e principal parceiro externo.

Os nossos governantes prosseguem na construção da intrujice, do logro com que pensam continuar a submeter os portugueses. Insistem na tese de que Portugal terá êxito seguindo o comportamento do "bom aluno", quando sabem muito bem que quando as coisas correm mal é o aluno que acaba por ser acusado de algum desvio e nunca o professor. Ora eles, como todos os portugueses e portuguesas atentos, também sabem que a crise é sistémica e que a cartilha que nos impuseram está repleta de erros e falsidades, aprisionando inexoravelmente o desenvolvimento da generalidade dos países, mesmo que em tempos diferenciados e com diferentes intensidades.

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Tomando imagens de algumas telenovelas brasileiras constatamos que os portugueses estão hoje, perante os credores e os agiotas, naquela situação dos trabalhadores "livres" das grandes fazendas brasileiras em que o patrão pagava o salário que entendia e, além disso, era o dono de todos os estabelecimentos em que os trabalhadores se podiam abastecer e dominava todo o quadro das suas relações sociais. Por mais que trabalhassem, os trabalhadores estavam sempre em dívida e sem liberdade.

Passos Coelho, Portas e companhia vão aumentando as advertências de que se as coisas correrem mal noutros países e no plano europeu, eles não podem responder pelo insucesso das políticas que nos vêm impondo. Ora, não têm faltado alertas e os chamados fatores externos são exatamente o resultado de "os outros" estarem a fazer as mesmas políticas que nós.

Quando, dentro de cerca de um mês, a troika apresentar a análise decorrente da sua quinta apreciação/ revisão do Memorando, vamos assistir à confirmação do não cumprimento das metas do Orçamento de Estado; vamos ver que o foguetório sobre o êxito das exportações já se terá esfumado; vamos sentir novos ensaios para o reforço da austeridade. Aliás, já andam por aí a ver se conseguem agravar os impostos, se generalizam os cortes nos subsídios de férias e de Natal, se nos conseguem empobrecer mais depressa.

A culpa não será dos outros! A culpa é dos conteúdos da cartilha que é aplicada em Portugal e no geral dos países europeus.

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