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Opinião

Chove dinheiro, água não!

Chove dinheiro, água não!

Nas últimas semanas surgiram notícias de relevo, relativas às decisões do Banco Central Europeu (BCE) "produzir" dinheiro; à opção do Governo meter graciosamente 4,4 milhões de Euros (portagens da ponte 25 de Abril) nos cofres da Lusoponte; à falta de transparência e ao atentado que significa o excesso de rendas (lucro) da EDP e de outras empresas; ao agravamento da seca.

O país precisa de chuva para a agricultura, para consumo de água e para limpar a atmosfera, mas a água teima em não cair do céu. Para agravar a situação de seca, que segundo vários especialistas não era de todo imprevisível e já dá sinais sérios há muitos meses, o Governo tem uma atuação tardia na mobilização de fundos em Bruxelas, e não executa medidas de apoio à agricultura em tempo útil.

Se a seca atingisse os interesses do poder financeiro e de grandes capitalistas, a ministra e o Governo já teriam atuado, mas como as faturas virão sobre o povo e as suas condições de vida, deixam andar.

No que diz respeito a sujidades e nuvens negras que pairam na atmosfera de Portugal e da Europa, é caso para dizer: estamos perante uma situação cada vez mais complexa que ameaça o nosso futuro coletivo.

O sol, a estrela que nos dá vida e nos ilumina, oferece-nos nestes dias uma chuva de partículas eletromagnéticas quando, no nosso país, o que precisávamos mesmo era de um forte aguaceiro de raios luminosos de democracia que trouxesse aos nossos governantes valores morais e éticos, sentido de responsabilidade, exigência de rigor, transparência no exercício da governação.

Não podemos ficar à espera do milagre de uma estrela e muito menos dos alertas, perdidos em nuvens de poeiras contaminadas, do avisador-mor do reino. Será o povo português, pela sua consciencialização, mobilização e luta, construindo projetos políticos alternativos e colocando-os em execução pela sua força coletiva, que encontrará as medidas necessárias, e cada dia urgentes.

Em nome da poupança de uns tostões corremos o risco de, a prazo não muito longo, apenas pouco mais de 1/3 dos desempregados terem subsídio de desemprego. Mas em agosto/setembro choveram, por decisão consciente do Governo, 4,4 milhões de euros nos cofres da Lusoponte. E quantos casos deste tipo, maiores e mais pequenos, existirão no país?

Os governantes enaltecem o despedimento mais fácil e a redução generalizada do valor das indemnizações por despedimento, num quadro em que os encerramentos e falências de empresas surgem em catadupa, quantas vezes a partir de duvidosas invocações da crise e para facilitar negócios de ocasião. Em contrapartida, chove dinheiro a rodos para acionistas das EDP e para alimentar os beneficiários dos contratos das ruinosas parcerias público-privadas, dinheiro esse sacado ao povo através dos impostos e de outras medidas e, em muitos casos, com sacrifício de pequenas e médias empresas.

Costuma dizer-se que o dinheiro não cai do céu. Estas práticas que referi e o comportamento do BCE devem levar-nos a exigir clarificação sobre como se faz aparecer dinheiro. Por onde anda ele e quem o controla?

No espaço de três meses, o BCE decidiu fazer chover duas bátegas de notas que somam cerca de 1 milhão de milhões de euros. É quase o dobro da soma das dívidas de Portugal, Irlanda e Grécia!

Esse dinheiro vai correr (escorrer), a taxas de 1%, para a Banca. Aí fica disponibilizado para os seus acionistas, que são simultaneamente os acionistas dos grandes grupos económicos, lhe darem bom tratamento. Ao comum das empresas pouco há de chegar e às pessoas muito menos.

Relembremos que o BCE é uma instituição da União Europeia. E, por exemplo, se a troika aplicasse a Portugal aquela taxa de juros, pagaríamos menos 2 mil milhões de euros de juros por ano do que vamos pagar!

O comum dos cidadãos está convencido de que não é possível criar dinheiro sem a garantia de depósito de metais preciosos, nas caves dos bancos centrais. Afinal, isso não é assim! Para alimentar o sistema financeiro, parece que eles conseguem fazer chover dinheiro quando querem.

As pessoas, habituadas a contar tostões, nem lhes passa pela cabeça que vivem prisioneiras destes esquemas.