Opinião

Mourinho vs Deolinda

Os dirigentes do Millenium BCP deviam despedir o director de marketing que aceitou a campanha milionária com Mourinho. Quem é que quer ouvir falar no sucesso de Mourinho, na sua 'Paixão pelo trabalho', na ambição de chegar à perfeição, nestes tempos em que o que está a dar é queixar-se, exigir, choramingar e outros verbos fracos que a geração celebrada pelos Deolinda adora? A campanha dos Deolinda está a ter muito mais sucesso que a do BCP - reportagens, tempo de antena e até já uma moção de censura em sua honra... Por isso: despedidos todos, já!, os do BCP. Assim sempre darão lugar a uns quantos destes jovens "altamente qualificados" e sem emprego, que se tornaram nos mais recentes heróis nacionais.

No entretanto, a "geração parva" de que falavam os Deolinda na canção do concerto no Coliseu de Lisboa, já se tornou na "geração à rasca" no protesto marcado pelo movimento de jovens precários, para o início do mês de Março, em Lisboa e no Porto. Não são nada parvos eles, sabem bem das conotações negativas que essa palavra tinha e da sua grande aderência com a realidade de que falava.

Não tenho nada contra protestos, mobilizações, tudo o que faça pôr o sangue da gente a bombar nas veias. Devo confessar - para minha grande vergonha adulta - que estive sentada na Av. Da Liberdade a protestar contra as propinas (sou da geração anterior à que Vicente Jorge Silva chamou rasca, no "Público", depois de um rabo de fora numa manifestação junto a São Bento.) O que me irrita, neste novo movimento e nesse de que fiz parte e me arrependo, é o que eles têm de contrário à revolução e à mudança. E as várias falácias e o perigo que representam para Portugal.

Irrita-me que jovens de barba mal semeada estejam a lutar por empregos seguros. Irrita-me que o seu maior desejo seja ser... funcionários públicos, encaixadinhos e de salário certo ao fim do mês. Exigem-no, mesmo. Em vez de se exigirem livres, estarem livres no tempo que lhes cabe sê-lo e provarem o que valem. Lutarem, emigrarem, mostrarem o que podem fazer e como a sua juventude aliada à qualificação pode ajudar a mudar as coisas.

Vão-me dizer que eles querem prová-lo, é para isso que lutam. Então arranjem outras palavras de ordem que não o direito ao emprego. Essa é muito enganadora. O emprego é um dever, não um direito. Com sorte, será uma paixão, como bem sabe Mourinho, ele que passou de tradutor a melhor treinador do Mundo, à custa de muita dedicação e exigência e mostrando o que vale todos as semanas, no relvado.

É verdade que o desemprego entre os universitários subiu 16 % de 2009 para 2010, em Portugal. E que o desemprego entre os jovens é o mais elevado, atingindo os 22,4 % - e muito fruto das leis laborais que protegem os trabalhadores e os seus empregos seguros. Mas os desempregados sem curso são praticamente o dobro dos universitários - 115 mil para 64 mil! E esse número quadruplica para os que têm apenas o básico - 423 mil. Portanto, ao contrário do que dizem os Deolinda na sua mensagem, perigosíssima para qualquer geração - estudar ainda compensa. Não representa é uma garantia de emprego. Esse, é verdade, teremos todos de continuar a lutar para honrar.