Opinião

O cheiro a mofo dos Homens da Luta

O cheiro a mofo dos Homens da Luta

Longe idos os tempos em que eu andava na primária, e o meu avô me comprava a "TV Guia" com um precioso guia de todas as letras das músicas do Festival da Canção, eis-me de novo interessada no tema Festival da Canção. Passados uns bons 30 anos. O mérito é de um grupo chamado Homens da Luta, vencedores da edição deste ano. E do sururu que para aí vai com esta vitória.

Parece um anacronismo. Um grupo com um nome destes, com a palavra "luta", era para ser do tempo daquele suplemento da "TV Guia" do final dos anos 70. Isto já dando um bom desconto: Homens da Luta seria um nome bom para um grupo, digamos, do PREC. Parece um anacronismo. E é.

Liderados por Jel, o mais politicamente interventivo dos humoristas portugueses, com presenças em campanhas eleitorais e um desvio para a esquerda radical nas piadas, os Homens da Luta são um grupo que está sempre ali a meio caminho entre o total "nonsense" (no qual são exímios os Gato Fedorento, por exemplo) e a intervenção política de consequências sérias. O fundo de comércio dos Homens da Luta é o descontentamento dos portugueses, sobretudo dos jovens que não se revêem no actual sistema e políticos. Tiveram, nisso, o mérito, de estar à frente dos Deolinda. E foi por isso que ganharam ontem - uma grande mobilização nos grupos sociais da Internet, que já tinha começado na pré-selecção, levou a que os votos telefónicos vencessem os votos do júri qualificado, em estúdio. No final do concurso, lá estava o anúncio político de que iriam participar na manifestação dos precários, no dia 12, em Lisboa.

A canção "A luta é alegria", não é tão má como a pintou o público que se levantou antes do final, do Teatro Camões, em sinal de protesto. Tem um certo ritmo, como diz o povo. O problema é que cheira a mofo. E é, de facto, tão anacrónica como o nome do grupo que a canta.

Tudo isto podia ser simplesmente humor. Mas não é. Podia ser uma das metáforas que eles usam, como a farda militar ou as calças à boca-de-sino - tudo a gozar com esses tempos do PREC, mostrando como foram um pouco ridículos. Mas não. O cheiro a mofo da mensagem dos Homens da Luta é a sério. E a sua faceta de intervenção política, também.

Está tudo traduzido no verso: "Vamos lutar, lutar contra a reacção". A linguagem, anacrónica. A mensagem, irrealista e falaciosa. Quem, nos dias de hoje, proclama isto, está precisamente do lado dos que querem manter o status quo, numa altura em que é preciso um novo paradigma para a nossa sociedade e para a nossa política. Dos que querem que o Estado os proteja, quando o Estado já não tem mais para onde se virar - sob pena de entrar em bancarrota.

Eles, os Homens da Luta e os que os seguem, proclamam a revolução mas estão do lado da reacção à mudança que é preciso fazer hoje, já, para que os ideais que eles próprios defendem sejam cumpridos. É preciso inovação, eles querem o direito ao emprego, como anuncia a manif do dia 12. Sem ideias novas, estão agarrados a motivos, looks e ideais de há 30 anos - como o bigodinho de Jel bem mostra. É pena que sejam jovens. É pena que sejam a geração que mais força e liberdade tem para lutar. E não há movimento do Facebook que os salve. O meio, neste caso, não condiciona a mensagem. Nem a faz, por isso, parecer mais modernaça.