Opinião

A marcha atrás é liiiiiiinnnnndaaaaa!

A marcha atrás é liiiiiiinnnnndaaaaa!

Se os números da pandemia voltaram a preocupar e as regras voltaram a apertar, podemos dizer, sem sombra de dúvidas, que a marcha vencedora deste ano é a marcha atrás. É que, para além da marcha do Orgulho ter sido desaconselhada, também outra marcha que envolve plumas e lantejoulas foi cancelada: as marchas populares.

Os dias de santos populares são os dias do verdadeiro milagre da multiplicação dos peixes. Como é possível assar-se meio oceano de sardinhas ao mesmo tempo que nos parece impossível, a qualquer um de nós, conseguir comer mais de duas, no meio de tanta confusão? Eu não quero mentir, mas em mais de 15 anos sou capaz de ter comido uma sardinha e meia no dia do arraial. E digo-vos assim, copos de sangria, cheios, devem ter sido três. Quando comecei a viver os santos em Lisboa com amigos percebi que havia uma tradição misteriosa, que nunca me lembro de ter sido discutida mas acontecia sempre, sem qualquer explicação, que era ir até ao Castelo. Porquê? Não faz sentido. Subir a encosta a passo de caracol, entre a multidão, em que acabávamos sempre a perder o Broas no caminho. Ligar? Tá quieto. Não há sinal, tal é a concentração de pessoas. Temos de parar. Não se afastem. OUVIRAM? NÃO SE AFASTEM! Impossível comer parado, impensável comer a andar e já beber é uma gincana em que ganha quem conseguir ter mais líquido no copo sem verter. Malta, chegamos. AGORA É DESCER!

E acabávamos todos estoirados a ir a pé para casa, porque toda a gente sabe que há duas coisas que nunca acontecem nos santos de Lisboa: conseguir apanhar transportes e ter acesso a uma casa de banho. "Faz aqui entre os carros, que eu meto o casaco a tapar. ALGUÉM TEM LENÇOS?". E foi assim que, pela primeira vez, fiz xixi na rua, entre um barril de cerveja e um Renault Clio.

Entretanto, passei a viver isto diariamente quando passei a ser moradora de um bairro lisboeta. Queixava-me do cheiro a sardinhas que me empestava a roupa do estendal e da tasca em baixo de minha casa que todos os dias, nesta altura, passava o mesmo CD o mês inteiro. Todas as manhãs acordava com a Raquel Tavares: "Meu amor de longe voltou, só para me ver. Talhado para miiiim...".

Resumindo: eu adoro os santos! Tenho saudades desta balbúrdia.

Este ano, santinhos só aqueles que invocamos quando alguém espirra e dizemos "vê lá se não é covid!". Nos últimos dias, nas maiores cidades do país, a Polícia andou atenta e fechou espaços, passou multas e mandou gente para casa no que podia ser descrito como uma marcha imperial ou, como se diz no Porto, uma marcha do fino. É proibido divertir. "Hei! Você aí! Isso é um alho-porro ou só está contente de me ver? Cidadão, cheire lá este manjerico. Não lhe cheira a nada? Jorge, leva este".

Para o ano, o país espera que a folia regresse e que, especialmente, estes sacrifícios de quem vive com os rendimentos das festas compensem para ver se realmente é como diz o ditado popular "para ter os números a descer, todos os santos ajudam".

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Humorista

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