Opinião

A menina que nunca tinha visto o Zmar

A menina que nunca tinha visto o Zmar

Com o Mundo a resistir a uma pandemia, não é fácil planearmos as nossas férias. Eu já tomei a decisão de ficar por cá, não só para contribuir para a economia nacional, mas também para descobrir as maravilhas do nosso cantinho.

A Costa Vicentina é obrigatória, porque tem tudo o que eu espero de uns bons dias de descanso: praias de sonho, peixe fresquinho e polémica que divide um país. Portanto, o local estava escolhido: o Zmar Eco Experience.

Um dos sítios onde se está a fazer o realojamento de dezenas de migrantes por causa da covid-19. Porque quando me falam em suspeitas de escravatura e tráfico de seres humanos, convencem-me imediatamente.

São trabalhadores dedicados a dois tipos de negócio: explorações de agricultura intensiva e explorações de mão de obra ilegal. Para além disto, são pessoas que vivem em contentores, sem água quente, como autênticas alfaias agrícolas. Em cada um, temos ancinhos, carrinhos de mão e 37 amigos do Zubir. É ótimo para a produtividade da empresa, porque assim não podem usar aquela desculpa de "estou a cheirar mal? É que fiquei sem gás e não pude tomar banho" ou ainda aquele clássico "desculpe o atraso, chefe. Estava muito trânsito". Parece-me também que depois de vermos as imagens revoltantes das condições de vida destas pessoas, ninguém pode voltar a usar a expressão "eu pareço que vivo na empresa", a menos que viva efetivamente num beliche ao lado da máquina fotocopiadora. Estes migrantes recebem à volta de 600 euros por mês, e deste salário ainda é descontado o valor de um seguro e o do alojamento. No fundo, se se alimentassem exclusivamente de frutos vermelhos, dava para umas valentes sete caixas e meia de mirtilos. Péssimo para a dignidade humana, mas ótimo para o detox da operação biquíni.

Os proprietários do Zmar estão profundamente complexados com a questão do realojamento no complexo turístico. É uma complexidade pegada. No entanto, simplifica um pouco, quando sabemos que as casas privadas não fazem parte deste plano e que a empresa Multiparques, proprietária do parque de campismo, está em situação de insolvência, em que o seu maior credor é o Estado português.

Mas fui então até às reviews do Tripadvisor, para perceber melhor o que promete a tal eco experience aos seus potenciais visitantes, como eu e os amigos do Zubir.

A Ângela do Porto, cujo título é "Eco experience ou pocilga experience?": "Os quartos são sujos e para utilizarmos a sanita temos que segurar no tampo da mesma, porque não se segura sozinha. A construção das casas de madeira é muito precária e o preço que cobram por dia (92 euros sem pequeno-almoço) é um verdadeiro assalto".

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O André do Seixal, que escreveu: "Péssimo local para tirar férias durante a pandemia.

Não desinfetam esplanadas nem mesas. Quando questionados por mim, responderam: "que limpam quando têm tempo"".

A Joana que quis deixar este apontamento à saída: "A casa estava cheia de formigas. Havia formigas por toda a zona da casa, inclusive na cama. A falta de limpeza do espaço foi notória. Lençóis das camas sujos e no geral a casa não estava limpa".

O Alberto de Torres Vedras: "Muito mau, a coberto do eco friend, enfiaram-nos numa barraca para refugiados, superapertado com divãs Ikea, péssimo."

A Nádia: "Na noite anterior, cortaram um dos pneus com uma faca! 7 rasgos no pneu! Senti-me imediatamente insegura, como é possível junto aos alojamentos alguém andar com uma faca e fazer tal vandalismo!"

O Marcos de Lisboa: "A cereja em cima do bolo é estar num resort tranquilo e ter dois músicos a tocar música pimba até tarde, contribuindo muito para o fim de semana descansado".

O Joaquim da Moita: "Conforme o título, segue a reclamação integral que foi feita no Livro de Reclamações, naturalmente o mais reduzida possível, tendo mesmo assim, usado 5 folhas".

O Carlos P: "Já vi acampamentos de ciganos com melhor aspeto!"

O Bruno: "Experiência num curral do Sudoeste alentejano!"

Ou ainda o sucinto César C: "Horrível é elogio!"

Em resumo, acho que se pode dizer que estes migrantes, no meio de tantas dificuldades, pelo menos não vão estranhar a cama. Já eu fiquei com uma dúvida: se o conceito eco da experience vem de ecologia, se vem de ecocó.

Até para a semana, com amor desta que vos vai começar a escrever aos domingos.

* Humorista

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