Opinião

A viga continua…

Passam 20 anos do dia 11 de setembro. O dia em que todos nos lembramos onde estávamos. Eu lembro-me de estar na tasca dos meus pais, rodeada de pessoas que àquela hora pensaram que já não podiam beber mais porque estavam a ter alucinações.

Parece que, a determinada altura, os americanos começaram a oferecer restos de materiais que sobraram dos escombros das Torres Gémeas e Ernesto Cabeça, um emigrante português nos Estados Unidos, fez jus ao seu apelido e ficou com uma viga de 2,5 toneladas. Um souvenir que mete a um canto os ímanes e t-shirts a dizer "I love New York". Depois de saber isto, fiquei com pena que outros emigrantes não tivessem tido a mesma ideia, porque hoje estaríamos todos a fazer um lego de tamanho real.

É um traço muito português isto de ir aos brindes e eu não sou exceção. "Ah, precisas de mais uma t-shirt de uma marca de tintas?" Preciso, pois não gosto de dormir nua. Zero euros tem esta menina gasto em pijamas nos últimos 10 anos.

Bom, depois de a ter conseguido trazer para Portugal, Ernesto ainda não conseguiu expô-la num espaço público, por isso, algures num quintal em Alverca, encontram-se escombros do 11 de setembro. E estar em Alverca é bastante simbólico. Alverca é considerada o berço da aviação em Portugal e neste momento, para além do Museu do Ar, Alverca também tem um museu do que foi pelo ar.

O presidente Carlos Gonçalves referiu ainda que, agora que está a par da situação, quer resolver a situação em breve. "Podia ser colocada numa rotunda ou num jardim". Pois podia. Uma rotunda com despojos históricos parece-me uma excelente ideia. Não é como se de repente fôssemos esquisitos com a arte que se coloca nas mais de 8600 rotundas que existem neste país. Chega ali à 557.º e já é uma coisa qualquer. "Tens aí um agarrador que não uses? Boa. Serve. Tens um tupperware com resto de arroz de pato? Também dá". A prova de que o critério é muito abrangente é a existência de uma "Rotunda das Minhocas" em Albufeira, que são dois tubos com óculos de sol, ou a "Rotunda dos Cabelos ao Vento", em Setúbal, que são literalmente seis ferros a fazer de fios capilares. Até os anúncios da saúde viável apresentam mais densidade.

Não é a primeira vez que um emigrante português tem uma ideia destas. Virgílio Casimiro juntou-se com outros portugueses radicados na Alemanha, adquirindo um fragmento do Muro de Berlim para oferecer ao Santuário de Fátima, que, desde 1994, está exposto numa das entradas do santuário. O que é uma boa oportunidade para uma futura aparição de Nossa Senhora. Pode sempre aparecer em cima do muro, representando assim mais uma pessoa do Médio Oriente a querer passar um.

Espero, sinceramente, que se arranje um local apropriado para colocar este pedaço de torre para que, quem possa visitá-lo, reforce o sentimento de que o extremismo tem de ser continuamente combatido e para que a família Cabeça possa ter finalmente espaço no jardim para meter um churrasco e umas espreguiçadeiras para poder descansar, porque a vida de emigrante raramente é fácil.

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Humorista

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