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As maravilhas da cultura populista

As maravilhas da cultura populista

Esta semana, foi notícia a contestação do montante de uma fatura de telefone pela Câmara de Ponte da Barca. Quem nunca contestou uma conta, não é? Aquela pequena apoplexia que dá quando vamos ao correio buscar as contas e percebemos que temos mais de 85 mil euros de telefone para pagar.

Pois é. Parece que esta semana se percebeu que a Câmara de Ponte da Barca gastou mais de 85 mil euros em chamadas de valor acrescentado feitas num concurso 7 Maravilhas da Cultura Portuguesa, baseado nas 7 maravilhas do mundo que contam com obras como o Taj Mahal, a Grande Pirâmide de Gizé ou os misteriosos Jardins Suspensos da Babilónia.

Conclusão: a Romaria de São Bartolomeu foi uma das vencedoras, deixando a comer pó tradições como a Arte da Seda de Freixo Espada à Cinta ou a Festa da Bênção do Gado de Riachos.

Por sua vez, a oposição em Ponte da Barca veio dizer que as chamadas para o 760 através do telefone da autarquia vieram "defraudar as votações populares" do concurso da RTP e que o presidente da Câmara, que ficaria favorecido com o provento, instruiu os serviços da Autarquia a fazerem imensas chamadas telefónicas. Só sabem embirrar. Passam a vida a dizer que é difícil o atendimento na Câmara e que demora tudo muito tempo: isto foi uma envergadura de meter inveja a muitos call-centers e ainda hoje há relatos de pessoas que estão a recuperar das tendinites nas falangetas.

Augusto Marinho, o presidente da Câmara, já veio responder a esta má vontade dizendo que "utilizar a Romaria de São Bartolomeu para jogo político manifesta, publicamente e claramente, a falta de propostas válidas para o concelho". Aí é que está. Os outros não têm nada para apresentar, o Augusto tem um pratinho com o logótipo da gala e uma foto com o José Carlos Malato. Chupem. Ou preferiam que o presidente da Câmara tivesse feito mais uma rotunda para todos se enervarem, dado que ainda hoje ninguém sabe como conduzir numa?

Mas isto não foi caso único, pois o prestígio do prémio das 7 Maravilhas é tanto que dá a volta à cabeça de qualquer presidente de câmara. No mesmíssimo concurso, a Câmara da Trofa, que tinha os Santeiros de São Mamede do Coronado a concurso, também efetuou inúmeras chamadas telefónicas que resultaram numa conta de telefone perto de 75 mil euros. Mas ganhou. A única dúvida que me surge é a de que com tantos concorrentes de reality shows naturais do concelho, como é que nunca ganhou nenhum? Porque é que não houve dinheiro público para votar na Juliana, que tanta vida dava à casa?

O presidente da Câmara da Trofa, Sérgio Humberto, assumiu a conta e, numa Assembleia Municipal, chegou mesmo a afirmar: "Entrámos nisto para ganhar. A Câmara gastou dinheiro com telefonemas? Gastou, sim senhora". Eu sugiro que, a partir de hoje, nos orçamentos públicos se crie um campo na folha de Excel para "orçamentos participativos em concursos de televisão" para tornar estas competições mais renhidas.

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Sabemos que o poder local não faz só chamadas locais e as autárquicas estão aí. É fundamental conhecer a visão dos candidatos para os concelhos: o plano para o município e o plano do tarifário. E, em altura de eleições, é tradição perguntar ao eleitorado "a quem é que compravas um carro usado?". Agora, nas próximas, o que temos de pensar é "a quem é que deixavas o teu telemóvel com saldo?"

*Humorista

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