Opinião

Aviso legal: esta crónica pode provocar homossexualidade

Aviso legal: esta crónica pode provocar homossexualidade

Nesta terça-feira, a Hungria aprovou uma lei que proíbe a "promoção" da homossexualidade junto dos menores de 18 anos, no mesmíssimo dia em que levou 3 a 0 de Portugal no primeiro jogo da fase de grupos.

E eu por acaso conheço algumas expressões para descrever esta goleada que, segundo esta diretiva, promoveriam imenso a homossexualidade.

Mas finalmente aquela licenciatura em publicidade e marketing vai ser útil para alguma coisa. Ora bem, nós no marketing sabemos que, quando queremos promover algo para menores, o poder de compra não está neles mas nos seus pais. E também conhecemos o poder de persuasão de uma criança para pedir à mãe ou ao pai aquilo que viu no reclame. Com "persuasão" leia-se birra insuportável no meio da rua.

Portanto, quando se fala em promoção da homossexualidade, eu imagino este diálogo:

- Mãe, eu vi dois meninos a dar um beijinho na televisão! Também quero!

- Ó Joãozinho, então isso não dá jeito nenhum. Não queres antes uma trotineta, que sempre é menos perigosa para andar na rua?

O que esta lei, na prática, vai fazer é proibir a divulgação de anúncios como o da Coca-Cola que mostra um casal de homens e que no passado já tinha levado a um boicote à compra do refrigerante. Só perceberia se houvesse casos provados de pessoas que, assim que deram um gole na Coca-Cola, começaram a arrotar purpurinas. Porque é desagradável. Os microplásticos são autênticos crimes ambientais. Mas suponho que esta seja a mesma lógica que os meus tios usam quando levo vinho rosé para os jantares de família. Nem lhe tocam.

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Também a literatura vai ser alvo de censura, como por exemplo o livro que no ano passado foi alvo da ira do primeiro-ministro húngaro "Um conto de fadas para toda a gente", que nada mais é do que uma versão dos contos que todos conhecemos, mas com uma Cinderela de etnia cigana ou uma Branca de Neve lésbica. Genuinamente, não percebo a indignação. A Cinderela é alguém que é permanentemente discriminada como cidadã de segunda, até que acaba por ter de contrafazer um vestido e a Branca de Neve é a história de uma moça que foge para uma república de sete homens, em que nem um faz o seu género.

Para além de tudo isto, o canal de televisão RTL Klub Hungary afirmou que a aprovação da lei também vai implicar proibir os menores de 18 de verem filmes como "Bridget Jones", onde a homossexualidade é mencionada. A questão é: se por ver um filme com homossexuais, uma pessoa se torna homossexual, eu tenho de começar a ver filmes da Marvel. Adorava andar aí a saltar de prédio em prédio, a lançar teias pelos pulsos, vestida de látex sem ficar assada.

Isto é tudo um retrocesso gigante e muito perigoso para a vida real das pessoas que vivem num país que é desde 2004 membro da União Europeia, cuja Carta dos Direitos Fundamentais proíbe qualquer discriminação com base na orientação sexual.

E a verdade é que, antes do regresso de Orban ao poder, em 2010, a Hungria era um dos países mais progressistas da região: a homossexualidade foi descriminalizada nos anos 60 e a união civil entre pessoas do mesmo sexo passou a ser reconhecida a partir de 96. O próprio Viktor Orbán, em 1986, casou-se com uma pessoa chamada Aniko Levai. Aniko. Levai. Ani ko...Levai. Perceberam? É pilhéria.

Ou seja, em termos políticos, presumo que para a Hungria, o Luxemburgo tenha deixado, desde esta semana, de ter primeiro-ministro, dado que o Xavier Bettel é casado com uma pessoa do mesmo género. Nem quero imaginar o próximo convívio dos líderes da União Europeia. A Ursula von der Leyen organiza um jantar lá em casa, uma trabalheira só para ter em conta as intolerâncias de cada um, e em que o Viktor no final mal toca no prato e em que o Xavier leva um rosé. Fora de questão jogarem ao Trivial Pursuit em equipas, porque era chegarem à categoria da palavra proibida e acabava com os vizinhos a chamar a polícia.

*Humorista

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