Opinião

Diz-me com quem dormes, dir-te-ei que dador és

Diz-me com quem dormes, dir-te-ei que dador és

Esta semana, o Parlamento português concordou com uma coisa. É verdade. Por unanimidade, o Parlamento vai legislar para acabar com a discriminação que ainda existe dos dadores de sangue homossexuais. Resumindo, os deputados querem que fique claro que há comportamentos de risco que nada têm a ver com a orientação sexual.

Mas também esta semana, veio a público um vídeo em que um professor do curso de Medicina da Universidade do Porto ensinava aos seus alunos que através da doação de sangue pode ser transmitido um "gene indutor da homossexualidade" e que "a alguns destes indivíduos homossexuais não lhes foi permitido doar sangue porque alguns são portadores de um gene que podem transmitir a sua homossexualidade aos seus netos e têm de ser afastados". Eu não estudei Medicina, para desgosto dos meus pais, mas tenho dúvidas de que isto da genética funcione assim. É dizer que alguém acorda de um transplante de fígado e que acaba a passar o resto da vida a aturar um puto que nasceu com uma fixação em ir a brunches e que chama Mama Monster à Lady Gaga. É complexo sustentar este raciocínio. Um dador através de um saquinho de sangue pode passar um gene da homossexualidade a um neto. Mas passa uma geração? E a um neto de quem? Pela lógica, não sei se até muitos dadores terão netos biológicos. Eu do meu recebi colesterol e um nariz mais abatatado, será a mesma coisa? Claro que ajuda a formar uma opinião quando percebemos que a própria ciência já desmentiu a tese deste docente há algum tempo.

Mas é como tudo. As discussões sobre a orientação e identidade sexual são uma noite em família a ver o Polígrafo da SIC. Sim, o Bernardo Ferrão diz que o António Costa não é um reptiliano, mas eu acho que não. Portanto, de um lado a ciência, o rigor, do outro "eu acho que". Lá está. Desde 1980 que a Organização Mundial de Saúde deixou de considerar a homossexualidade uma doença, mas não é por isso que o nosso tio deixa de achar que usar brinco na orelha é à maricas.

Em 2015, na Comissão de Saúde da Assembleia da República, ouviu-se Hélder Trindade, o então presidente do Instituto Português do Sangue e Transplantação, que defendeu que os homossexuais e bissexuais sexualmente ativos deviam continuar a ser excluídos da dádiva de sangue, a menos que fossem abstinentes. O que é dificílimo pois é tirar o sufixo à orientação sexual. "Estás a guardar-te para o casamento? Não. Estou a guardar-me para o Posto Fixo de Alvalade".

Realmente, a transmissão de doenças foi um argumento que sustentou esta proibição, exclusiva a um grupo de pessoas. Quando doamos sangue, a lei obriga ao rastreio de doenças infecciosas potencialmente transmissíveis pela transfusão de sangue (hepatite B, hepatite C, sífilis e vírus da imunodeficiência humana) em todas as unidades de sangue colhidas. Todas.

A verdade é que, durante anos, ser homossexual era um pormenor expressamente impeditivo de doar sangue e que ainda hoje, de formas mais ou menos subtis, ainda acontece. Começou a mudar no papel quando, em 2016, a DGS emitiu uma norma onde desapareceu qualquer referência à categoria "homens que têm sexo com homens" e que, até então, era suficiente para a exclusão automática na doação de sangue. Porque como homossexual é uma palavra grande, antigamente iam diretos ao assunto e mencionavam especificamente o que queriam excluir. Ora, eu já vi alguns filmes, em determinados sites, que mostram sexo de homens com homens, e não sei se vi bem porque não cheguei ao final, mas em termos de orifícios, não há outros para além dos habitualmente utilizados no sexo heterossexual.

Mas isto se calhar podia ter-se resolvido antes. Sei que há falta de pessoal nos hospitais, mas sinto que deveria haver um escanção em cada unidade, para uma pessoa que entrasse num bloco operatório pudesse ser aconselhada sobre as colheitas disponíveis.

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Ora bem, para este transplante temos várias opções, todas elas muito boas. Aqui, temos o sangue de uma senhora doméstica que só conheceu um marido, a vida toda. Também temos um heterossexual, que uma vez numa festa da universidade decidiu experimentar. E acabou de chegar uma reserva de um homossexual que vive num T2 com dois bulldogues-franceses.

Quero é que me salve a vida, caraças. Quero lá saber se é tinto ou se é branco!

São permanentes os apelos do Instituto Português do Sangue para a necessidade de dadores de sangue, especialmente os dos grupos sanguíneos A e O. Por isso, sozinhos ou com amigos, namorados, namoradas, filhos ou colegas de trabalho, vão até ao ponto de recolha mais próximo. Aproveitem que dão bolachinhas e sandes de paio no final.

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