Opinião

Fazer o gasto ao dedo

Nas discussões sobre o Orçamento do Estado e no que é que vai afetar os orçamentos das famílias, é fundamental perceber quanto é que representa as raspadinhas ao final do mês. E vocês estão a pensar "no meio de tanta coisa boa para falar sobre o Orçamento do Estado deste ano, vai falar de raspadinhas?". Sim, sr. e sra.

Há uma epidemia a nível nacional de que ninguém fala: O vício de raspar um cartão com uma moeda ou, para os verdadeiros profissionais, diretamente com a dedo até ficar com a falangeta toda assada.

No mês passado, saiu um estudo da revista cientifica "The Lancet Psychiatry" que revelou que Portugal é o país da Europa onde mais dinheiro se gasta neste tipo de lotarias: é o dobro da média europeia. No final do dia, resulta numa média de 4,7 milhões de euros. Para terem uma ideia, é mais ou menos o equivalente ao salário mensal do Ronaldo no Manchester United. Se calhar, em vez de jogarmos no Placard, poderíamos fazer uma vaquinha e comprar logo as equipas.

A raspadinha supre a necessidade da gratificação imediata e do dinheiro fácil, e os números denunciam realmente um problema de vício de jogo, que aumenta em alturas de crise. Em vez de ver aquelas pessoas que de deslocam a pomposos casinos, cheios de luz e brilho, são pessoas que vão até à bomba de gasolina gastar o salário na Aranha da Sorte ou na Joaninha da Fortuna.

As mais populares são as Pé de Meia. A Mini Pé de Meia, a Super Pé de Meia, a Mega Pé de Meia...e nisto lá se vai todo o pé de meia que teríamos se não tivéssemos gasto em Pé de Meia.

Eu não sou viciada, porque ainda não dei por mim a gastar o dinheiro do supermercado e a começar a raspar ao pé de crianças, mas em alturas especiais gosto de consumir com moderação. Mas já dei por mim, quando sou premiada com 1€, em vez de levantar o meu prémio, troco por outra, até não me sair rigorosamente nada. É um jogo realmente muito giro, porque se perde constantemente. Mas o balanço é sempre positivo. Como diz o ditado: azar ao jogo...sorte a voltar para um casamento em que só não nos separamos porque arranjar casa nesta altura é impossível.

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A realidade que nos mostram os dados é que a maioria dos apostadores têm baixas habilitações literárias e 80% têm rendimentos mensais entre os 500 e os 1000 euros, sendo que um em cada três jogadores da raspadinha ganha abaixo dos 500 euros. E com especialistas a alertar para este crescente problema social, o Governo mostrou que está atento e respondeu: criou a Raspadinha do Património Cultural! Pelo valor de 1 euro, o cidadão habilita-se a ganhar até 10 mil euros! Com o objetivo de arranjar dinheiro para financiar intervenções no património cultural, são estas classes sociais mais desfavorecidas que vão acabar por contribuir. Depois se lhes sobra dinheiro, ou não, para ir visitar o bonito museu, paciência. Comprem uma raspadinha a ver se ajuda. Por isso, se a sorte bate à porta, não sei, mas com estes factos, podemos dizer que há mais probabilidades de bater um cobrador do fraque.

*Humorista

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