Opinião

Jogos Ol ímpios

Numa altura em que o Mundo vive o retorno dos grandes eventos, as competições desportivas também regressaram, especialmente no tempo.

Esta semana, no jogo da medalha de bronze do Campeonato Europeu de Andebol de Praia, a seleção feminina da Noruega jogou com calções de licra e acabou com a comissão disciplinar a passar uma coima de 150€ por jogadora. Ao nível de multas injustas, está taco a taco com aquela que é aplicada em Portugal a quem urinar no mar.

Segundo o regulamento em vigor, as jogadoras de andebol de praia são obrigadas a usar biquíni, sendo que a parte de baixo do equipamento não pode cobrir mais de 10 centímetros da parte superior das pernas, enquanto os jogadores têm de usar camisola e calções. Nos dias hoje, é difícil arranjar uma boa justificação para isto. Eu até perceberia um argumento que assentasse na performance, se a Noruega em calções não tivesse acabado a competição em 4.º lugar e se a equipa masculina tivesse jogado sempre em modelos saco de pão. Talvez tenha sido por não haver uma bonita justificação que a comissão decidiu apostar na honestidade e assumir: "o objetivo da regra é criar atratividade e angariar patrocínios". Porque é isto mesmo.

Realmente, os apoios públicos são insuficientes e os patrocínios fazem toda a diferença para a continuidade destas modalidades. E, no final do dia, para os clubes, federações e patrocinadores, trata-se de atletas, sim, mas acima de tudo trata-se de gajas. É efetivamente difícil fazer com que o público queira acompanhar equipas femininas a nível desportivo - como é que se contraria isto? Com a mesma regra que se usa para fazer anúncios de cerveja: rabos e mamas a saltar.

O caminho que faz sentido é, dentro de um quadro padronizado que respeite a performance, as atletas é que deveriam escolher a sua forma confortável de jogar e até pode ser o biquíni para algumas. Para mim, o único desporto profissional em que o biquíni é o equipamento desportivo perfeito é na modalidade de enfardamento de bolas de Berlim com creme, porque não temos de desapertar botões nenhuns a seguir.

É que, de repente, os problemas de atletas profissionais são os mesmos que os meus quando combino ir à praia. Que parte de baixo levo? tenho a depilação em condições? Estou naquela altura do mês? É que estar naquele primeiro dia de período pode mudar algumas coisas, digo-vos assim.

Geralmente, os atletas estão a borrifar-se para estes temas, já lhes basta a vida de sacrifício, foco e disciplina que têm de ter para atingir todo o seu potencial. Mas além da brigada antidoping, as atletas femininas têm de passar pela brigada dos bons costumes. Sejam eles quais forem.

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Ora, não estão despidas o suficiente: as regras desportivas de várias modalidades proibiam o uso de hijab e, em 2011, isso fez com que a seleção de futebol feminino iraniana fosse eliminada dos Jogos Olímpicos, porque as atletas se recusaram a tirar o lenço; em 2018, a Federação Francesa de Ténis proibiu equipamentos que não fossem saias ou calções, após a tenista Serena Williams, por razões médicas, ter usado um macacão para evitar coágulos sanguíneos, depois de ter sido mãe, havia poucos meses.

Ora não estão vestidas o suficiente: em fevereiro deste ano, numa das etapas do circuito mundial de voleibol de praia, o equipamento das voleibolistas de praia gerou celeuma, no Qatar; a federação internacional chegou a mudar as regras das indumentárias, para promover o uso de "camisolas e calções largos até ao joelho".

E a polémica não é só lá fora. Em 2019, uma jogadora de basquetebol de Tavira foi impedida de jogar depois de recusar despir a camisola que tinha por baixo do equipamento por motivos religiosos. A atleta de 13 anos ainda sugeriu arregaçar as mangas da camisola até aos cotovelos, mas nem assim foi autorizada a jogar.

Acho importante destacar estes episódios porque se percebe que em competições todos os pontos e centímetros contam, e que infelizmente em atletas femininas começam logo pelos do tecido.

E a verdade é que se torna cada vez mais difícil para estas organizações tapar o problema. Já nos Jogos Olímpicos de Tóquio, a equipa de ginástica artística alemã deu que falar. Apresentou-se no treino de pódio com calças que cobrem as pernas, nádegas e virilhas como forma de protesto pelos habituais collants que expõem grande parte dos seus corpos.

Tudo isto me leva a crer que o protesto da competição não vai ser ajoelhar no chão contra o racismo, mas voltar a usar calças contra o machismo.

Humorista

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