Opinião

Ler com distanciamento social

Ler com distanciamento social

Faço parte dos 884 mil casos diagnosticados com covid-19 em Portugal desde o início da pandemia. E, se tudo continuar assim, também parte dos 831 mil recuperados.

Depois de mais de um ano a fugir ao bicho, o bicho apanhou-me a menos de uma semana de ir levar a vacina. E eu não sou uma pessoa de fazer planos, mas desta vez tinha tudo agendado: era aqui ao lado de casa, tinha libertado espaço no telemóvel para me filmar a ser inoculada e tinha combinado ir à minha gelataria favorita, porque quando era pequena me levavam sempre a comer um picolé. Não vou dizer que morri na praia, porque seria de mau gosto, mas sinto que tropecei no tapete da entrada e fui de cara ao lancil.

De todos os sintomas, preciso de destacar a dor de cabeça: começa nas fontes, vai aos ouvidos, desce até ao maxilar e até a ponta do nariz lateja. Quando, para descrever "infeção por covid-19", o presidente brasileiro escolheu dizer "uma gripezinha", devia ter automaticamente perdido a vez de continuar a jogar ao Party&Co. A menos que uma "gripezinha" seja a sensação de levar com um trem de cozinha de 24 quilates, no crânio, de cinco em cinco minutos. E eu sei que sou uma sortuda. A ver pelas últimas notícias da variante delta, se a carga viral fosse maior, se o meu sistema imunitário estivesse mais fragilizado, tudo isto poderia ser bem pior. Daí a importância da vacinação. Nos últimos dias, o aumento de casos tem levado a alguns comentários, como "a vacina, afinal, não faz nada". Vamos lá ver uma coisa: a vacina não cura, mas faz com que o impacto do vírus seja menor. Mais simples agora: os cintos de segurança também não impedem acidentes rodoviários, mas ajudam bastante se batermos de frente contra um poste.

Eu não andei em grandes celebrações (se fiquei excessivamente contente por termos ganho à Hungria? Eh pá, sim! Mas também não é disso que estamos a falar), não participei em festas clandestinas em caves, não lambi corrimões nem chamei elevadores com o nariz. Não sei como apanhei, mas posso dizer-vos o que é capaz de ter contribuído: descontraí ao não usar álcool-gel com frequência, ao ponto de o frasquinho se ter tornado na nova caneta: nunca temos à mão quando precisamos. Descontraí na música dos parabéns ao lavar as mãos. "Parabéns a você, nesta daaa...", já está. Descontraí na minha relação com as máscaras. Por exemplo, tenho umas três no carro, agora quanto tempo têm, a última vez que foram lavadas, se são realmente minhas ou se foi alguém que lá as deixou.... E a seguir vão perguntar-me quem é que construiu as estátuas da ilha da Páscoa ou qual é o sentido da vida, não? O processo que acontece no meu bolso do casaco é o mesmo daquelas máquinas dos peluches: meto a mão, sai alguma coisa, vitória.

Estou há dias à espera do telefonema do médico do centro de saúde, a Saúde24 está a rebentar pelas costuras e os serviços estão tão entupidos como o meu nariz (Sr. Doutor, se estiver a ler isto, ligue-me). No entanto, posso dizer que este diagnóstico mudou a minha vida: não voltei a tocar num cigarro, nem em café, e todas as manhãs bebo sumos com bagas goji. Faço vapores com eucalipto, tomo pastilhas de vitamina C e só tenho comido produtos bio. Vou acompanhando com litros de chá de funcho e de equinácea e, se for preciso, até um ensopado de lulas acompanho com mel e limão. Não ter olfato e paladar é uma porcaria, porque não consigo ver se o frango que tenho ali está bom ou não, mas ajuda-me a conseguir comer gengibre à dentada. Tudo isto para ficar boa e voltar a poder quebrar tabus como o "folhado de salsicha não é pequeno-almoço".

Agora, eu não sou a pessoa mais lesada por esta situação. A única pessoa a quem isto afeta mais do que a mim é o líder do Chega, que disse que quer ser o último português a tomar a vacina contra a covid-19. Pois, parece que vai ter de esperar um bocadinho mais, que, a ver pelas diretrizes em vigor, só daqui a seis meses é que eu tomo a minha dose.

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*Humorista

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