Opinião

Metade mulher, metade vergonha alheia

Metade mulher, metade vergonha alheia

Um Mundo possivelmente à beira de uma guerra nuclear, um período fortemente marcado por crises económicas e climáticas, mas felizmente ainda há muita gente dedicada aos temas importantes: diz que a "Pequena Sereia" vai ser preta.

Os tempos estão realmente mudados. Nos cafés, onde havia discussões sobre subidas dos preços ou se aquilo no jogo de ontem foi falta ou não, fala-se agora de princesas de desenhos animados. Adultos, pessoas com idade para se lembrar perfeitamente dos penáltis que o Ricardo defendeu contra a Inglaterra no Euro, irritados com uma historinha da Disney. Há aquela expressão, de que pessoalmente gosto muito, que diz para não deixarmos morrer a criança que há em nós, mas há pessoas que se calhar deviam pensar em deixá-la seguir a sua vida para outro lado. Sei lá, deixar a criança que habita nelas arranjar um part-time, alugar um quarto, ir de férias com amigos...

Parece que vai sair "A Pequena Sereia" em live-action e a pessoa escolhida para a interpretar é a Halle Bailey, uma atriz e cantora afro-americana. A maior parte das pessoas achou a escolha interessante, porque a artista é realmente talentosa e porque até vai ser importante para muitas meninas e meninos que se vão sentir representados nesta história. Mas outras pessoas acharam o casting muito mau, mesmo para quem Ariel até então era só um detergente de roupa que se compra, quando o que nós realmente gostamos não está em promoção. Foi inclusivamente criado um movimento online com a hashtag #NotMyAriel e o próprio trailer do filme no Youtube teve 1,5 milhões de "não gosto" contra 617 mil "gosto".

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Eu não sei como dizer isto de outra forma mas: é uma sereia e as sereias não existem! São personagens mitológicas, curiosamente encontradas no folclore de vários pontos do globo. Sei que alguns de vocês precisam de um tempo para processar toda esta informação, mas o Pinóquio não é um menino de verdade, os tapetes não voam e é pouco provável que um leão, um javali e um suricata fossem amigos na vida real e não um lanche ajantarado do primeiro.

Eu cresci com a versão de 1989, com uma pequena sereia de pele branca, cabelo encarnado e olhos claros, mas quem cresceu com o conto original de 1837, do Hans Christian Andersen, também deve ter ficado arreliado com a versão que a Disney fez. Porque a história com que crescemos é bastante diferente da original. Mas se estamos numa de seguir rigorosamente o original, "A Pequena Sereia" do Andersen devia ser lida aos filhotes destes puristas. Aqui vai: por se ter apaixonado por um indivíduo, a "Pequena Sereia" aceita que lhe cortem a língua em troca de duas pernas. Em cada passo que dava, as pernas doíam-lhe como facas afiadas e os seus pés sangravam horrivelmente, mas para agradar ao príncipe, a "Pequena Sereia" passava os serões a dançar. Mesmo assim, o príncipe acaba a apaixonar-se por outra mulher e casa. A "Pequena Sereia", de coração partido, tenta assassiná-lo, mas como não consegue, mata-se. Fim. Gostaram, pequeninos? Ah, porque é que estão a chorar e aos gritos? O quê? Não vão conseguir dormir nos próximos dois meses?

Não sei quanto a vocês, mas eu tenho saudades de ver um filme. Só um filme. Se a nova versão fosse escrita por mim, a história era assim: uma sereia apaixona-se por um príncipe e diz-lhe "queres casar comigo e viver feliz para sempre?"; e ele "ah, mas fisicamente não fazes o meu género, qual é a tua opinião sobre cirurgia plástica?"; e ela "deves achar que és a última bolacha do pacote, vai para a gruta da tua mãe!", e a Ariel era representada pela atriz Carla Andrino. Por isso, Disney, se estiver a ler isto, entre em contacto, porque podemos chegar a um acordo interessante.

*Humorista

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