Opinião

Olhar para o vazio

Foi leiloada esta semana uma escultura do artista italiano Salvatore Garau. Seria apenas uma nota que entraria naquela secção de arte e cultura do jornal, se não fosse um ligeiro pormenor: a obra é invisível. Só existe na imaginação do artista. Sim. É isso mesmo.

A base de licitação foi de 6 mil euros e foi arrematada por 15 000 euros a peça que fez parte do catálogo da leiloeira Art-Rite. Que foi a vontade que me deu depois de ler esta notícia. A única prova física da aquisição é um certificado de autenticidade. Por acaso, na minha altura, quando alguém nos passava um atestado de estupidez, nós até levávamos a mal. Mas quem sou eu para opinar assim? Sou completamente leiga na matéria. A minha experiência com a arte é a mesma que tenho com pessoas que quero engatar: acho-as bonitas, fazem-me sentir coisas e ficavam bem lá em casa.

O autor explicou que "a ausência de matéria é um ato de amor para com o desconhecido e o mistério com que quase toda a humanidade está comprometida" e que "o vazio é o único espaço de liberdade em que é a nossa energia que lhe dá todas as formas, que são nada mais que gritos do pensamento". Gostaram? Apanhados! Esta última fui eu que a inventei.

Mas a escultura veio também com instruções para ser exibida de forma correta: "A escultura imaterial para ser colocada numa casa particular dentro de um espaço livre e com dimensões variáveis".

A verdade é que, mesmo nunca tendo mais que 3 a EVT, me sinto profundamente inspirada. Esta semana não vai ser mais uma mera crónica de domingo onde leem umas coisas escritas por uma pessoa comum. Não. Esta semana vai ser diferente, porque vocês também merecem ter arte nas mãos. Agora, para resultar, preciso de vocês sentados num maple de napa, com um chapéu de Robin dos Bosques e nus da cintura para cima. Estamos? Cá vai.

E a mim também me pagaram.

Humorista

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