Opinião

Palestina rima com "outra vez carnificina?"

Palestina rima com "outra vez carnificina?"

Por esta altura, já deve ter passado pelas notícias que dão conta do conflito no bairro de Sheikh Jarrah em Jerusalém Oriental. Os números já mostram centenas de mortos. Dezenas são crianças. Se diz que o Hamas usa civis como escudo humano, Israel mostra que já há muito que deixou de fazer contas em escudos.

Não é fácil perceber o conflito israelo-palestiniano, que dura mais que todos os episódios de Inspetor Max. Reposições e tudo. Uma das conclusões é: Desde 1948, quando mais de 700 mil palestinianos foram obrigados a sair de casa e outros milhares empurrados, e empurrados, e empurrados, para condições de vida indignas, que a Palestina está sempre a perder.

Israel é uma das forças mais poderosas a nível militar. Têm armas nucleares, químicas, biológicas, e até se diz por aí que todos na IDF têm um fitbit. A Palestina não tem exército, nem força aérea, nem marinha de guerra...mas tem calhaus. Porque é uma coisa que, parecendo que não, quando te rebentam com o bairro, há muito por onde escolher.

Ou seja, numa imagem que todos conhecemos é como ter o bully da escola, o Ruben, que é muito crescido para a idade e que até já tem aquele buço esquisito, contra o Carlinhos portador de uma fisga no bolso de trás. E o Carlitos diz "Deixa-me. Mete-te com alguém do teu tamanho" e pimba! Leva logo com um rocket na testa que vai de rojo até ao cacifo. O Carlitos nunca pode dizer que andou à porrada com Ruben, o Carlitos levou um enfardamento do Ruben. Assim é que é. E ele já está tão habituado a isto que já nem leva o Ruben a tribunal de guerra. É como todos os processos. Na maior parte das vezes uma pessoa vai lá e é só perder tempo.

Quando a ocupação aconteceu, os palestinianos tiveram de fugir para países como a Síria. Até 2015, segundo a ONU, existiam 5 milhões de refugiados palestinianos. Eu conheci alguns vindos da Síria nos meus trabalhos como voluntária em campos de refugiados. Porque quando o conflito começou na Síria, só no campo de Yarmouk, estavam cerca de 140 mil palestinianos refugiados. Aposto que estas pessoas são como a minha tia que está sempre a dizer que é um íman de azares e que tem de ir à bruxa.

Na minha pesquisa sobre Palestina e intervenção percebi que as novas gerações deste país estão atentas. Não percebi que só somos todos mini-Nunos Rogeiros, especialistas em geopolítica nas redes sociais, como também encontrei a canção de um artista chamado Plutónio que no seu hit Cafeína, abordou o conflito israelo-palestiniano. Canta assim:

"Quer provar da minha melanina
Porque o nigga não tem disciplina
Na cama dela é só Palestina
E ela gosta por baixo e por cima
"Tou com sono ela tem cafeína"

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Cá está. A mensagem é ligeiramente encriptada à primeira vista. Há quem possa achar que foi só uma coisa para rimar com o composto químico mas é mais profundo que isso. Fala logo em ausência de disciplina. Ele é que faz as regras. Depois "Na cama dela é só Palestina e ela gosta por baixo e por cima". O autor aqui fala perversamente do seu comportamento no quarto. Além de gostar de ocupar muito espaço na cama ainda é daqueles que dá pontapés a dormir. Uma crítica indubitável às políticas Estado de Israel. Como nesta parte: "tou com sono, ela tem cafeína" é também sobre um statu quo que é confortável para o Governo de Netanyahu mas que as forças de Esquerda como a Frente Popular de Libertação da Palestina e a Frente Democrática de Libertação da Palestina insistem em destabilizar com a sua resistência.

Enfim. Fala-se muito da segunda vinda de Jesus à Terra mas a bem da sua saúde, que ele sofre um bocado dos sistema nervoso, é melhor não vir. Ele que remarque o voo para Jerusalém e que veja se o hotel tem disponibilidade noutra altura, porque este timing não podia ser o pior.

*Humorista

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