Opinião

Pesadelos na cozinha

Quando meio país se queixava de estar na lista vermelha do Reino Unido, eis que deixaram um inglês vir: o Gordon Ramsay, esse hooligan. Não como o típico que chega cá e atira cadeiras de esplanada mas aquele que atira pela janela o livro da Maria de Lurdes Modesto.

Parece que o chef, que todos conhecemos por fazer tão bem bife Wellington como insultos a concorrentes de programas de cozinha, andou por cá a recriar pratos nacionais. O primeiro desafio foi um pequeno-almoço. Eu pensei que fazer um programa sobre um Ucal e pão de leite misto não teria interesse nenhum mas fiquei curiosa para ver o resultado. E se houve gente indignada, eu não quero ficar atrás e vou tentar arreliar-me um bocadinho.

E então não é que ele fez um prato com ovos cozinhados em manteiga a baixa temperatura com legumes salteados e uma tira de porco preto?! A desfaçatez. A dançar um quickstep em cima da nossa história e dos nossos antepassados!

Quando me disseram que para além desta brincadeira, este terrorista ainda se propôs a arriscar numa carne de porco à alentejana, eu comecei a suar em bica. O que é que falta? Vai usar abacate? Sei lá, vai substituir as amêijoas por um pudim abade de Priscos? Vai ser daqueles tipos gentios que usam a Bimby? Não. O chef detentor de 16 estrelas Michelin lançou um vídeo que o mostra a preparar um estufado com porco, batatas e tomate cherry. Cherry! Nem sequer foi do chucha. Mas quem é que ele pensa que somos? Nós somos um povo que só teve conhecimento do tomate cherry em 2010. Isso dantes não havia. Era tomate. Se fossem pequeninos não teriam nascido expressões tão ricas na nossa cultura popular.

Mas, atenção, não somos só nós a ser picuinhas com a comida. Os nuestros hermanos também. Parece que saímos ambos ao pai que, além de mandar a cabidela para trás porque tem pouco vinagre, ainda chama o gerente para fazer uma cena no restaurante. Estávamos em 2016, quando numa noite fria de outubro, outro chef britânico, de seu nome Jamie Oliver, conspurcou uma receita espanhola: a paella. Um prato de arroz com carne, peixe, marisco e vegetais. Mas como é que se arruína uma receita que faz um pião de 180.o na roda dos alimentos? Acrescentando esse vil ingrediente a que vulgarmente chamamos CHOURIÇO! O ultraje! Bom, mas não vale a pena aprofundar muito que nós também criamos uma coisa chamada "arroz à valenciana" e conto pelos dedos de uma mão as vezes que comi um que fosse decente.

Mas a este autêntico incidente diplomático, temos de responder da mesma maneira, mostrando que conseguimos fazer melhor. O vosso fish and chips? Bacalhau à Narcisa. Tumba. Black pudding? Morcela da Guarda com grelinhos. Chuuupem! Shepherd"s pie? Empadão de restos com a carne que sobrou do dia anterior. Não brinquem connosco.

Agora, se também somos os vândalos que põem natas na carbonara e acham que arroz chau-chau é um prato chinês? Se somos os inventores de gelado de sardinha e do pastel de nata de caracol, um sucesso nascido em 2016 no Festival Internacional do Car acol, em Castro Marim? Pois, é nisto que temos de refletir e acalmar um bocado a histeria gratuita enquanto bebemos um chá. Aliás, essa é outra! O chá! Vocês em Inglaterra só conheceram o chá porque uma infanta portuguesa......

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*Humorista

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