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Esta semana parece que houve uma corrida de toiros, na Praça do Campo Pequeno, em homenagem internacional ao cavaleiro João Moura. Gerou-se então muita indignação a quem pareceu um bocadinho inapropriado ter de repente o Mundo a dizer "João, tu és realmente soberbo. De nada, ora essa. As plumas são lindíssimas e as lantejoulas ficam a matar. Nomeadamente Bovinos. Obg. Cumpts."

Eu só percebo porque homenagem parece uma coisa muito forte. Estamos habituados a associá-la a coisas como um evento de homenagem aos bombeiros portugueses, a gala de homenagem ao Pauleta ou até o concerto de homenagem a António da Conceição, que dirigiu durante quase 70 anos a banda musical da Póvoa do Varzim. Agora, uma festa em que se espetam animais com ferros para celebrar um arguido que está a aguardar julgamento por maus-tratos a animais... Desculpem, mas há poucas coisas na vida tão coerentes como esta. Porque "Evento em homenagem a João Moura de voluntariado em associações animais" ficava esquisito.

Como se trata de malta da tauromaquia, sinto que tenho de discriminar os animais que constam no processo-crime. Na sua herdade, em Monforte, João Moura, para além de cavalos e toiros, também criava galgos. Para corridas, caça à lebre...enfim, acho que o conceito era criar especificamente animais que fizessem trabalho por ele. Não, João, corre tu. Não, mexe o rabo e vai tu apanhar o coelho. E no ano passado este Comendador da Ordem Civil do Mérito Agrícola, Industrial e Comercial foi detido pela GNR por suspeitas do crime de maus-tratos a animais de companhia. O veterinário que acompanhou a operação confirmou o estado grave de subnutrição dos animais e foram apreendidos 18 galgos (um não resistiu e acabou por morrer), que fazem hoje parte de famílias que os tratam condignamente.

Ao saber do caso, a Associação Nacional de Toureiros emitiu um comunicado a reagir à detenção, onde sublinha que é importante "não confundir atitudes pessoais com a classe profissional a que pertence". Eu percebo. Aliás, está na ordem do dia este tema dificílimo da separação do homem e da obra do artista. Temos de saber separar o homem que maltrata cães, do artista que tortura animais numa arena.

João Moura negou estes maus-tratos, dizendo e cito: "Alguns estavam magros, mas não os tratei mal", que é coisa que podia ser dita por progenitores que inscrevem as filhas de 5 anos em concursos de beleza. Na altura, ainda se tentou justificar com "não tinha dinheiro para dar uma saquinha de ração, coitado", porque se descobriu que o cavaleiro renegociou uma dívida na ordem do meio milhão de euros e a sua, agora fechada, empresa de espetáculos tauromáquicos, Verónicas & Piroetas, chegou a ter mais de 30 processos de execução fiscal. Eu fui pesquisar mais sobre a empresa e confirmei a descrição "Exercício e promoção de atividades tauromáquicas. Criação de gado bovino e cavalar. Atividades relacionadas com a produção, compra e venda animal, compreendendo ainda as atividades relacionadas com a criação e exploração de cães de raça". Cá está. Então se eles morrem, como é que a empresa aguenta? E será que os cães eram dele ou da empresa Piruetas mal escrita? Pois, é que então foi a empresa que esteve muito mal e o João Moura muito bem, que ainda ficou com os cães lá em casa dele.

Na época, eu fiquei ralada com isto porque percebi que talvez o João Moura não andasse a falar com o seu filho João Moura Jr., que desconfio que teria uma sugestão para alimentar os cães. Em 2013, o também cavaleiro João Moura Jr. decidiu publicar imagens caseiras de bull-bating, que é uma prática ilegal em Portugal, que consiste em atiçar cães para esfacelarem bovinos vivos. Acabou a pedir desculpa, dizia-se muito envergonhado, chegando a afirmar que "foi uma situação isolada, quando os cães entraram inadvertidamente no recinto onde estava a vaca, não se tratando de nenhuma luta de animais", e inadvertidamente tinha uma máquina fotográfica com ele, inadvertidamente colocou o logótipo da família na foto, inadvertidamente publicou nas redes sociais.

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Na discussão sobre esta indústria, também é importante falar do ganha-pão que representa para muitas pessoas, especialmente em regiões mais fragilizadas, e por isso estava aqui a pensar como poderia ajudar esta família a ter mais condições para cuidar dos animais, e não é que descobri que o João Moura tem uma rua com o seu nome em Monforte e logo no final da rua ali com a estrada da circunvalação fica o Instituto de Emprego e Formação Profissional? Aconselho a visita.

*Humorista

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