Opinião

Quando se escolhe Portugal

Quando se escolhe Portugal

Em 1912, Portugal participava pela primeira vez nos Jogos Olímpicos e, até hoje, somamos 28 medalhas conquistadas. Com tantos diplomas olímpicos que já recebemos este ano, podemos assumir que temos a geração mais bem preparada de sempre.

Curiosamente, entre 1924 e 1960 as nossas meritórias medalhas olímpicas foram ganhas por atletas como José Mouzinho de Albuquerque, Paulo d"Eça Leal e Duarte e Fernando Bello nas modalidades de esgrima e equestre e vela. (Nenhum de vocês chegou sequer a pensar em atletismo ou lançamento do peso, admitam). Fomos excelentes em modalidades do século XV e é pena que não tenham decidido criar a modalidade hemodiálise com ancinho e alicate.

Hoje, quase 100 anos passados, Portugal já tem o melhor resultado de sempre em Jogos Olímpicos. De sempre. Bravos os atletas Fernando Pimenta, Pedro Pichardo, Patrícia Mamona e Jorge Fonseca que espetaram a bandeira portuguesa no chão do Olimpo. Seria uma situação muito feliz para todos mas não é suficiente para alguns. Nem pensem nisso. Os padrões começam logo pelo dos descobrimentos: qualificou-se como português? Qual foi a marca que alcançou na portugalidade? Estava em situação irregular no SEF?

Surpreendeu-me. Porque seria expectável que estas mesmas pessoas ficassem orgulhosas, dado que são portugueses que foram para um país e trouxeram o ouro para cá.

Depois de, em 2018, ser chamado de "cubano de importação" por um comentador de atletismo da RTP, e esta semana, depois de ter ganho a medalha com um salto de 17,98 m, Pedro Pichardo recebe de um jornalista da RTP a pergunta que se impunha num momento histórico como aquele: "conseguiu cantar o hino nacional? Estava de máscara e não se viu". Pois. Isso é que foi pena. Não ficamos a saber se o Pedro diz "Nação valente, imortal" ou "Nação valente e mortal" ou se se engana naquela parte dos egrégios avós. E hino esse que resulta de uma música do artista Alfredo Keil, filho de dois alemães radicados em Portugal.

Mas como os pais do Alfredo Keil, são muitos os que escolheram Portugal. Alguns exemplos:

Por volta de 1849, veio para cá José Francisco Arroyo, do País Basco, o que viria a ser o primeiro diretor do Teatro de São João no Porto e pai de António José Arroio que veio a dar nome a uma escola artística, conhecida por ter sempre a malta mais cool de Lisboa.

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Ou a Carolina Michaëlis vinda da Prússia em 1876, tendo sido a primeira mulher a lecionar numa universidade portuguesa, na Universidade de Coimbra, e uma das duas primeiras a entrar na Academia das Ciências. E que dá hoje o nome a uma estação de metro do Porto entre a da Casa da Música e a da Lapa.

Também um arquiteto holandês chamado Gerard van Krieken, que projetou a Basílica de Nossa Senhora do Rosário no Santuário de Fátima e que veio a dar bibelôs muito giros em casa das nossas tias.

Ou ainda o suíço José Fontana, ou devo dizer Giuseppe Silo Domenico Fontana, um intelectual e sindicalista que veio a ser um dos fundadores do Partido Socialista e acima de tudo a pessoa que deu o nome à praça em frente à minha escola secundária, onde íamos fumar escondidas da diretora de turma.

E tantos outros: o humorista Badaró; a Appolloni, ou devo dizer Giuseppina Appollon, que nasceu na Perúgia, em Itália; o Piet-Hein Bakker, que nos trouxe o "Big Brother" e toda a febre por reality shows; o Ljubomir Stanisic, nascido na antiga Jugoslávia, que é conhecido pelo seu trabalho como chef de cozinha e pela participação como Oleksandr Chernoff na série "O clube" da Sic; A Roberta Medina, responsável pelo Rock in Rio em Lisboa e jurada nos ídolos durante duas edições. E por falar em jurado dos ídolos, Shegundo Galarza, maestro e compositor espanhol de origem basca e pai de Ramon Galarza que era o jurado fofinho do painel.

Portugal é exatamente isto: um lugar de refugiados, de migrantes, de deslocados, de quem nasce e de quem renasce aqui. E são todas estas pessoas que fazem disto um país. Porque as pessoas não precisam de ser todas extraordinárias como atletas olímpicos para ser português. Não têm de ter superpoderes e a prova disso é que nascem cá muitos idiotas.

Segundo a lei da nacionalidade, só há duas exceções: "quem tenha sido condenado a pena de prisão igual ou superior a três anos, com trânsito em julgado da sentença" e quem represente "perigo ou ameaça para a segurança ou a defesa nacional, pelo envolvimento em atividades relacionadas com a prática do terrorismo". Como veem, basta só não ser um psicopata com hobbies esquisitos.

Depois fazer o pedido da nacionalidade portuguesa tem o custo de 250 euros, que podem ser pagos em duas modalidades: com cartão multibanco, no local onde fizer o pedido ou por cheque ou vale postal, se fizer o pedido por correio. Depois é ver se tem o impresso apropriado, o requerimento perfeito, o anexo certo e esperar. A experiência de ser português começa logo com a demora dos serviços. Pode também ser um teste para saberem o quão desejam a nacionalidade. Aposto que muitos chegam a meio caminho e pensam "se calhar vou ali para um país de Primeiro Mundo".

*Humorista

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