Opinião

Velocidade noticiosa

Fala-se muito da pouca visibilidade do cinema em Portugal, mas de repente percebemos que a solução estava aqui à mão, e quiçá muitas vezes em contramão: carros e ministros, os ingredientes certos para um enredo de encher de vergonha a malta de Hollywood.

No mês passado, assistimos todos ao filme dramático que envolveu o carro do ministro da Administração Interna e Nuno Santos, um trabalhador que fazia reparações no separador central da A6. Ficámos todos perplexos, tanto pela tragédia pessoal como pela personagem envolvida. A maior parte de nós quando viu a notícia pela primeira vez reagiu sensata e assisadamente: "O Cabrita! Claro que tinha de ser o Cabrita". Depois, num outro momento, a trama adensou-se ao mesmo tempo que nos deu um autêntico "comic relief" quando descobrimos que o BWM envolvido no atropelamento tinha sido apreendido há cerca de dois anos por ordem do Tribunal de Penafiel, depois de ter sido fotografado em vigilâncias a entregar heroína ao cabecilha de uma rede de tráfico de droga em Felgueiras.

Atenção, este BMW é um carro que, se falasse, era um KITT ao contrário, na medida em que a popular série dos anos 80 se intitulava "O Justiceiro" e aqui é mais "O Delinquente". "KITT, vem-me buscar!". Vais é o caral/($! Tu aqui baixas é a bolinha que se não vais a penantes.

Esta semana, o nosso ministro do ambiente, Matos Fernandes, foi apanhado pelas câmaras da TVI a queimar pneu, circulando a 200 km/h na A2 e a 160 km/h numa estrada nacional, em que o limite máximo é de 90 km/h. (Isto agora foi para relembrarem a matéria. Tenho em mim que, se voltássemos a repetir o exame de Código, chumbávamos metade. Porque eu sei lá qual é o peso bruto máximo legalmente admitido para um veículo de três eixos).

Para além disto, o motorista a determinada altura decidiu ligar as luzes de marcha de emergência, cuja lei prevê em situações de serviços urgentes de interesse público. E até aí tudo bem, emergências acontecem. Será que reabriram de repente a central termoelétrica a carvão de Sines? Será que alguém deitou uma palhinha no contentor de lixo comum? Não. O ministro regressa a Lisboa depois de ter marcado presença num evento que assinalou a reabilitação da ETA. Só se percebia a urgência se a ETA não fosse a Estação de Tratamento de Águas do Roxo, mas a descoberta, de repente, de uma célula do grupo separatista basco em Aljustrel.

Para responder a isto, o ministro disse que o seu motorista é um profissional. Ah, ufa! Tive receio que fosse um motorista amador, mas afinal recrutou o Fangio da rodovia nacional. Aliás, só não deve ter conseguido contratar mesmo o ator principal do "Fast & furious", porque o Diesel está caro como o caraças.

Mas Matos Fernandes também foi intrépido e responsável nas suas declarações: "Não tenho qualquer memória de os factos relatados terem sucedido", que é o que eu vou começar a dizer quando for parada pela autoridade. "Você não viu o sinal vermelho?", "Não sabe que não pode estar ao telemóvel?" "Então estava a 200 km/h em contramão na Ponte Vasco da Gama, de chinelos e tronco nu?" Sr. guarda, não tenho qualquer memória de os factos relatados terem sucedido. Adeus e resto de boa tarde.

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Já a CMTV subiu a parada e apanhou o primeiro-ministro a fazer 300 km da A1 (de Gaia para Lisboa) em menos de duas horas. É chocante. Porque tendo de fazer o centro de Lisboa até São Bento, só hora e meia é para passar a rotunda do Marquês.

Mas é nestas coisas que percebemos que é difícil assumir estes cargos. Porque enquanto nós receamos ser fotografados pelo radar, o executivo preocupa-se em ser filmado para passar no jornal das 8. Em qualquer dos casos, a multa, em princípio, pagamos sempre nós.

Há sempre quem fale muito dos carros dos ministros, ali com grandes bombas e tal, e geralmente calham em ser os mesmos que dizem que faz falta um Governo de mão pesada. Alegrem-se. Pelos vistos já não falta tudo. O pé já temos.

Agora, enquanto cidadã mas até mais enquanto peã, espero que no futuro o Executivo, nos protocolos da tomada de posse, faça o juramento ao país com a mão sobre um Código da Estrada.

Humorista

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