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Ceuta: a instrumentalização ignóbil do desespero humano

Ceuta: a instrumentalização ignóbil do desespero humano

Na semana passada, assistimos a mais um episódio dramático da imigração, quando milhares de migrantes marroquinos e subsarianos entraram em Ceuta, procurando, desesperadamente, chegar à Europa.

A causa imediata desta crise migratória parece ter sido o internamento em Espanha de Brahim Salim, líder da Frente Polisário, o movimento de independência do Sara Ocidental. Foi um ato de retaliação por parte de Marrocos, que usou o desespero de seres humanos como arma de arremesso político contra o que considera ser uma afronta do Governo Espanhol. Mas também foi uma forma de chantagem sobre a União Europeia, num momento em que o reconhecimento da soberania marroquina sobre o Sara Ocidental pela Administração Trump acalentou a esperança de ver outros a seguir este passo.

Este triste episódio também demonstra como a falta de uma verdadeira política de imigração da União Europeia a tornou vulnerável a chantagens ignóbeis. Por diversas razões a pressão migratória é uma realidade com a qual a União Europeia tem de viver. Tem de aprender a geri-la, até porque precisa de fluxos migratórios para atenuar o impacto negativo do envelhecimento demográfico sobre a sua economia e bem-estar dos cidadãos. Em vez de enfrentar a situação, está obcecada com a contenção dos fluxos migratórios, vivendo na ilusão de que pode parar o vento com as mãos. Em vez de apostar numa política de imigração, baseada na cooperação internacional, que crie canais legais e transparentes de admissão, e numa política coerente de integração de imigrantes, que exige recursos, prefere manter o status quo e a velha receita do reforço contínuo do controlo de fronteiras, pagando à Turquia, a Marrocos e às milícias líbias a tarefa de impedirem a chegada de imigrantes. Criou, assim, tampões que são uma forma hipócrita de esconder uma pressão migratória que existe e existirá, ao estilo "longe da vista, longe dos direitos", ao mesmo tempo que ficou vulnerável a uma chantagem constante e ignóbil do tipo "tenha cuidado, que abro a torneira".

A Europa, continente de emigração, também é e será destino de fluxos migratórios que deve gerir em benefício de todos. É uma tarefa complexa, mas que tem de ser enfrentada, até porque só a criação de vias legais de imigração permitirá combater eficazmente a imigração irregular e acabar com o modelo de negócio das redes criminosas de tráfico de pessoas, que políticas restritivas ajudaram a criar e a alimentar. Também só assim poderá ser coerente com os seus valores humanistas.

Professora universitária e deputada à Assembleia da República

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