Opinião

Estado decente não "empurra" jovens para a desqualificação!

Estado decente não "empurra" jovens para a desqualificação!

Quando ler este título pode pensar que é "fake news". O Estado que investe no Ensino Superior não promove a qualificação dos seus jovens? Caro leitor, infelizmente a aposta pessoal na qualificação nem sempre compensa, como tão bem ilustra a experiência de J. e L., que é a de muitos jovens deste país.

São meus filhos (aqui fica a declaração de interesses). Um dia, atreveram-se a sonhar que queriam ser treinadores de desporto no país que os viu crescer e que não querem abandonar. Sabiam que tinham de ter, e bem, um Título Profissional de Treinador de Desporto (TPTD), emitido pelo IPDJ, após uma formação. Esta pode ser, nos termos da lei, uma licenciatura de uma IES ou uma formação de uma qualquer federação desportiva.

J., muito consciencioso da importância da qualificação, decidiu investir três anos numa licenciatura em Treino Desportivo na modalidade de ténis de uma IES pública, acreditada pela A3ES (Estado). Tem, hoje, formação superior (geral e específica) e estágio em treino desportivo, mas, pasmem-se, está impedido de exercer a profissão para a qual foi formado pelo Estado, porque o Estado (IPDJ) não lhe permite sequer solicitar a emissão do TPTD. Tristemente, lá descobriu que se tivesse optado por pagar uma "formaçãozinha" da Federação Portuguesa de Ténis já o IPDJ o autorizaria a exercer a profissão que elegeu. "Formaçãozinha" sim, porque é a palavra certa para qualificar uma formação geral e específica de nove dias seguida de estágio, como a realizada em 2018. Valeu a pena ter sacrificado três anos a qualificar-se? A resposta que o Estado lhe dá é "NÃO"! Vá-se lá perceber porquê, o IPDJ não reconhece NENHUMA licenciatura para este efeito. Tivesse J. optado pela "desqualificação" e seria, hoje, um orgulhoso (mas muito menos qualificado) treinador de ténis. Já L. não "perdeu tempo" numa licenciatura ("para quê queimar pestanas a estudar, se depois o Estado não o vai reconhecer?") e lá pagou um desses "cursinhos" privados que o IPDJ tanto gosta de promover com o reconhecimento automático. Ao fim de meia dúzia de meses já exibia, com orgulho, o seu TPTD emitido pelo IPDJ. Muito menos qualificado que o seu irmão "doutor" é certo, mas treinador encartado como manda a lei. Por que razão o IPDJ (Estado) só reconhece as "formaçõezinhas" (não sujeitas a qualquer controlo externo de qualidade) de um punhado de dias ministradas pela Federação Portuguesa de Ténis? Não se sabe! Só sei que um Estado decente não deve "empurrar" os seus jovens para a desqualificação!

*Professora universitária e deputada à Assembleia da República

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