Opinião

Lançar já o "passaporte covid" é um descaramento!

Lançar já o "passaporte covid" é um descaramento!

Foi com espanto que encarei a pressa da Comissão Europeia em lançar um "certificado verde digital" para permitir aos cidadãos vacinados contra a covid-19, com teste negativo ou recuperados uma mobilidade "segura e não discriminatória" na UE. Segura? Pessoas vacinadas não transmitem o vírus?

Quem tem teste negativo à covid-19 não se pode, entretanto, infetar e colocar em risco a saúde dos outros? Quem sobreviveu à doença não a pode mais transmitir? Não é, agora, discriminatória?

Mas o que mais me indignou é que este "passaporte para a liberdade" só vai acrescentar intolerável desigualdade àquela que já existe. "Sortudos" daqueles poucos que já foram vacinados! "Sorte", pois a estratégia de vacinação liderada pela UE é, hoje, uma questão de mero azar. Sabia-se que, numa primeira fase, haveria escassez de vacinas. Mas na UE a dimensão desta penúria (basta comparar com os EUA, o Reino Unido ou Marrocos) atinge níveis incompreensíveis, em parte devido à incompetência e falta de visão estratégica da Comissão Europeia (ou de burocratas cinzentos e sem mundo de Bruxelas). Nem sequer percebeu que do processo de vacinação dependeria não só a saúde dos cidadãos, mas a recuperação económica, o bem-estar de todos, a coesão no interior da UE e até, o que não é de excluir, o seu futuro enquanto entidade que se legitima por estar ao serviço das pessoas, de todas elas. Enquanto não existirem vacinas disponíveis para todos, enquanto a decisão sobre a vacinação não depender apenas e tão-só da vontade de cada um, condicionar (e até mesmo equacionar condicionar) a liberdade das pessoas (de viajar, de frequentar espetáculos culturais, de ir ao restaurante, enfim, de ter uma vida normal) à apresentação de um certificado de vacinação é inaceitável. Uma sociedade decente, pautada por valores éticos e respeitadora de direitos humanos não discrimina as pessoas de forma tão cruel. Dar a este "livre-trânsito para a liberdade" a aparência de medida não discriminatória, incluindo as pessoas com teste covid ou que recuperaram da doença, ou é falta de senso ou um perigoso exercício de desfaçatez. E quem não pode alimentar a indústria lucrativa do teste covid ou não foi infetado? Fica preso em casa ou, se quiser ter liberdade, vai tentar infetar-se, que é à borla! Afinal onde ficam a decência e os valores do respeito pela pessoa humana que deveriam nortear a União Europeia? Não sei. Talvez tenham sucumbido ao desespero da indústria do turismo. Parece que já vale tudo, menos arrancar olhos!

Professora universitária e deputada à Assembleia da República

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