Opinião

Racismo e homofobia: duas faces da mesma moeda

Racismo e homofobia: duas faces da mesma moeda

A semana passada foi marcada por dois episódios vergonhosos que nos mostram como a lógica binária do "nós" e dos "outros", propagada à velocidade da luz pelas tão "amadas" redes sociais, está a empobrecer-nos coletivamente.

Falo da inenarrável notícia da Lusa sobre a tomada de posse da comissão eventual para a revisão constitucional, que identifica de forma racista, inadmissível e insultuosa a nossa deputada à Assembleia da República, Romualda Fernandes.

O editor de política da Lusa assumiu responsabilidades e demitiu-se e a Lusa apresentou, ao mais alto nível, um pedido formal de desculpas. Mas este episódio diz também muito sobre aquilo em que se transformou o nosso jornalismo.

No afã de alimentar o online, vários órgãos de comunicação social, incluindo alguns ditos sérios, fizeram o que sempre fazem: copy paste rápido sem qualquer leitura minimamente atenta ou crítica. O que interessa é encher os jornais de notícias, pouco importando o seu conteúdo. "Depressa e bem não há quem", como nos ensina a sabedoria popular.

O outro triste episódio foi o dos panfletos homofóbicos que um (ou mais) ignorante(s) covarde(s), provavelmente com problemas sérios de impotência sexual ou sexualidade mal resolvida, distribuíram, anonimamente, na Covilhã, para denegrir Adolfo Mesquita Nunes e Pedro Farromba. Também eles foram vítimas de um episódio indesculpável de homofobia, que diz muito do nosso subdesenvolvimento estrutural.

Tanto o racismo, como a homofobia são sentimentos discriminatórios e preconceituosos que radicam profundamente na ignorância e impedem o desenvolvimento de uma sociedade sã, inclusiva e tolerante, uma sociedade que vise a felicidade de todos. Para tal é absolutamente necessário que se erradique a lógica binária do "nós, os do bem, os puros" e os "outros, os que não são do bem ou são do mal". Infelizmente, esta lógica simplista, que alimenta e é alimentada pelo populismo sobretudo da extrema- -direita, está em ascensão no nosso país e tem estado a propagar-se como um vírus contagioso e perigoso.

Todos, sem exceção, temos a responsabilidade de combater estas narrativas assentes em estereótipos, que cavalgam os preconceitos das pessoas, com o objetivo de eliminar o pluralismo e a tolerância. Na era das redes sociais e do jornalismo de produção instantânea esta é uma tarefa difícil. Mas não nos podemos dela demitir, pois é responsabilidade de todos e de cada um de nós a construção de uma sociedade inclusiva, onde todos cabem e devem ser respeitados.

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*Professora universitária e deputada à Assembleia da República

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