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"Sofagate": também tu Charles Michel?

"Sofagate": também tu Charles Michel?

Na última semana, muito se disse sobre a reunião que Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, tiveram com o ditador islâmico turco Recep Tayyip Erdogan.

O que marcou a agenda mediática não foram os assuntos tratados nesta reunião entre a União Europeia e a Turquia. Pouco importou se a União Europeia foi "vender a alma ao diabo" e continua a pagar um preço duplamente caro (em dinheiro e em valores), cedendo à chantagem da Turquia, só para que não abra a porta aos cerca de quatro milhões de refugiados que acolhe. A política europeia do "longe da vista, longe dos direitos humanos", em que tudo vale só para não se cumprir uma obrigação legal e moral de proteger seres humanos carecidos de proteção internacional não é apelativo do ponto de vista mediático.

O que mais marcou a Comunicação Social e as redes sociais, de que a primeira é crescentemente caixa de ressonância, foi a humilhação sofrida por Ursula von der Leyen, a primeira mulher à frente da Comissão Europeia (uma espécie de Governo da União Europeia). O episódio não foi só surpreendente. Foi sobretudo triste e condenável. Uma Ursula von der Leyen que se depara com uma disposição da sala em que apenas existiam dois cadeirões majestosos, onde se sentaram, lado a lado, o presidente do Conselho Europeu e o presidente turco, enquanto ela, a "mulher", se viu obrigada a sentar-se num sofá, afastada de tão importantes criaturas. O incidente diplomático ficou conhecido por "sofagate" e logo se seguiu, um pouco por toda a parte, um sem número de acusações merecidas a Erdogan. Para além da atitude desrespeitosa em relação a uma instituição europeia, que dentro do equilíbrio institucional da União Europeia não deve ser protocolarmente desvalorizada, este incidente protocolar apenas testemunhou o enorme desprezo do presidente turco pelas mulheres, corroborado pela retirada unilateral da Turquia da Convenção de Istambul, um instrumento essencial da luta contra a violência de que são vítimas as mulheres.

Mas neste caso, como em tantos outros, a culpa não deveria morrer solteira. A atitude de Charles Michel, ou melhor, a falta dela, é igualmente merecedora de censura. Se estivesse à altura do cargo, se para ele este tipo de situação discriminatória fosse intolerável, deveria ter-se recusado a ocupar o lugar de destaque que lhe tinha sido reservado e simplesmente sentar-se no sofá ao lado de Ursula von der Leyen. Isso, sim, teria sido de Homem!

Professora universitária e deputada à Assembleia da República

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