Opinião

Uma sociedade decente não tolera a desigualdade de género

Uma sociedade decente não tolera a desigualdade de género

Todos os anos recordamos as conquistas das mulheres, o seu contributo para a sociedade e a importância da igualdade de género. Passada a efeméride anual, lá regressamos à dura realidade da vida, bem plasmada no Relatório sobre Desigualdade de Género 2021 do Fórum Económico Mundial.

A desigualdade de género teima em persistir. Com a trajetória atual serão precisos quase 137 anos para a eliminar no Mundo, e na Europa Ocidental cerca de 52 anos! É, a par de outras, um "cancro" que a sociedade não consegue eliminar. E bani-la deveria ser um desígnio de todos (homens e mulheres), pois é a luta por uma sociedade decente, intolerante à discriminação, promotora da realização individual e incondicional da felicidade de cada um, sonhadora com um Mundo melhor. Muito já foi feito, desde a legislação sobre paridade (quotas) para alavancar uma maior participação das mulheres na política à linguagem neutra. Mas é insuficiente. Pouco importa que se diga "presidente e presidenta", se a probabilidade de uma mulher ser "presidenta" continuar a ser muito inferior à de um homem com igual projeto de vida. As mulheres continuam a auferir salários inferiores; estão sub-representadas nas "instâncias de poder", da política à economia; continuam desproporcionalmente sobrecarregadas com as múltiplas funções de "ganha- -pão", domésticas e cuidadoras informais da família. Acabar com esta injustiça implica uma revolução de mentalidade, que não se faz por decreto, antes tem de ser induzida pela educação desde o berço. Requer também uma alteração profunda da forma como nos organizamos, a começar pelo trabalho (doméstico ou não), para permitir a todos conciliar as diferentes dimensões da vida (trabalho, lazer, família). Temos de adequar os horários de trabalho e criar estruturas de apoio à família verdadeiramente universais. Mas também precisamos de rever a forma como avaliamos o mérito das pessoas, a começar pela glorificação do "bom trabalhador" como aquele que trabalha mais horas e está sempre disponível. Este é um mito que apenas serve os homens que não têm de ir buscar as crianças à escola, fazer o jantar ou cuidar dos mais próximos. E é apenas um mito, porque quem chega antes e sai depois da hora é tão-só incompetente, já que não consegue cumprir as tarefas no seu horário. Quem está sempre disponível não é o mais empenhado, apenas é o que não tem mais nada para fazer. Talvez quando se mudar esta mentalidade, a igualdade de género tenha o terreno fértil para se tornar realidade!

Professora universitária e deputada à Assembleia da República

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