Opinião

A abstenção e o ensino

A abstenção e o ensino

De eleição para eleição tem-se registado um aumento da taxa de abstenção nas legislativas. De 8,3% em 1975, passou-se para 45,5% em 2019 (excluindo os círculos eleitorais da emigração).

Independentemente da análise que se faça aos cadernos eleitorais e à necessidade da sua atualização, todos os dados indicam que a taxa de abstenção é superior à média nos eleitores mais jovens.

Este facto deve constituir uma preocupação de toda a sociedade, mas também das instituições de ensino.

Numas eleições a que se apresentaram 21 partidos ou coligações (mais 4 do que em 2015), parece difícil que os eleitores não consigam encontrar um em que se possam rever. No entanto houve menos 312 mil votantes do que em 2015.

Tem-se associado o aumento da abstenção à descredibilização da política e dos políticos. Mas, mesmo que assim seja, a abstenção dificilmente será a solução porque em nada contribui para inverter essa situação. Pelo contrário, o aumento da participação cívica, quer nos diferentes partidos políticos existentes, quer, se for o caso, através da promoção de novas formações políticas, poderá contribuir para um rejuvenescimento da política e para a criação de alternativas que se venham, eventualmente, a mostrar mais credíveis.

Abster-se de votar, para além de nada resolver, significa deixar na mão de outros a capacidade de decidir o rumo do país no futuro próximo. Mas esse rumo não vai afetar apenas a vida de quem vota, mas também a vida de todos aqueles que optaram por não contribuir para essa decisão. E são muitos destes que acabam por passar toda a legislatura a criticar o "estado das coisas", sem se aperceberem que, indiretamente, foram os principais contribuintes para que aí se chegasse.

As instituições de ensino devem ter um papel importante na consciencialização dos jovens para a importância das eleições, enquanto pilar fundamental do estado democrático. Da mesma forma, devem tornar clara para os jovens a perceção da importância das eleições para a vida coletiva da sociedade e de cada cidadão enquanto indivíduo. Tal pode ser conseguido, por exemplo, com a introdução de disciplinas de consciência cívica ou ciência política nos curricula, complementadas com atividades extracurriculares que sejam atrativas para os estudantes.

*Presidente do Politécnico do Porto