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Opinião

A era do pensamento mágico

A era do pensamento mágico

Boris Johnson teve numa só semana mais derrotas do que Tony Blair e Margaret Thatcher numa década. Acreditar que é à pressa que se encontrará solução diz muito sobre esta era de "pensamento mágico" em que a política internacional estranhamente caiu. ​​​​

O Brexit é a decisão política mais estúpida das últimas décadas: gera impasse do qual ninguém faz a mínima ideia sobre como sair - sobretudo na questão das Irlandas, irresponsavelmente ressuscitada.

Se correr muito mal levará a retração dolorosa. Divórcio "litigioso" levará a redução de 36 mil milhões de dólares no que a UE poderá deixar de exportar para o Reino Unido.

O que será mau para muitos pode ser bom para outros: China (10 mil milhões a mais para exportar para Inglaterra), EUA (mais 5 mil milhões) e outros mercados - Rússia, África do Sul, Índia, Brasil - terão ganhos extra.

Boris pode ser "muito mais culto que Trump". Mas tem tido comportamento igualmente irresponsável. Acreditar em soluções rápidas para o que não se resolveu em três anos e meio é enveredar pela "diplomacia do depois logo se vê" que o presidente americano, toscamente, adotou para a Coreia do Norte ou o Irão.

Na Alemanha, só a memória histórica dos mais velhos minimizou impacto da atração dos jovens pela extrema-direita de nostalgia nazi muito pouco disfarçada da "Alternativa".

Quando só as marcas do que de pior já se viveu nos podem salvar da propensão para a selvajaria, confiar em "instintos" de líderes supostamente "imunes aos vícios da política" pode soar a reação compreensível perante falhanços dos "moderados" (foi Cameron, e não Johnson ou Farage, a levantar a tampa da "caixa de Pandora"). Mas tem tudo para ser desgraçada receita para o desastre.

Se escaparmos será por pouco.

*ANALISTA DE POLÍTICA INTERNACIONAL