Opinião

A espuma dos dias pandémicos

A espuma dos dias pandémicos

Enquanto a Europa dá sinais de desorientação no combate à covid-19 usando e abusando da figura do estado de emergência, como no caso espanhol ou francês, quase até maio de 2021, o Governo português procura não se deixar arrastar da mesma forma.

Parece avisado. Desde logo alterando o seu modelo de comunicação sobre a pandemia para o que já havíamos alertado, aqui, em 6 de agosto passado. Mais vale tarde do que nunca.

Torna-se necessário deixar a componente técnica da pandemia exercer as suas competências e possibilitar aos profissionais de saúde os meios necessários para tal.

Aos políticos compete estarem já a preparar a gestão do pós-crise pandémica e das dificuldades que da mesma vão emergir.

Desde logo, as relacionadas com as políticas públicas de envelhecimento. Vemos o Parlamento a discutir a eutanásia, mas não temos uma palavra sobre a demografia do país e as necessárias alterações que a mesma exige.

Depois o modelo de gestão do nosso Serviço Nacional de Saúde. Este está esgotado e necessita de, cada vez mais, se assumir como um Sistema de Saúde onde convergem vários atores na sua operacionalidade.

Faltam, ao mesmo tempo, sinais de apoio à economia e ao elevar dos salários e do poder de compra das famílias. Continuamos a discutir a legislação laboral e as reivindicações dos funcionários públicos, esquecendo que muitas pessoas quase que já pagam para ir trabalhar. O quadro das prestações sociais extraordinárias evidencia que já parece não compensar trabalhar para ir receber o salário mínimo nacional.

Não sei em que país vive o nosso Governo e o nosso Parlamento. Sabemos é que, ao adiar constantemente as reformas que Portugal necessita, estamos a comprometer o futuro das novas gerações e a criar elites que vivem dos impostos da cada vez mais depauperada classe média.

A Constituição de 1976 consagrou princípios de um Estado social, de uma economia de iniciativa privada e um papel público regulador.

Ora, chegados a este ponto, o Governo continua a acreditar que com os dinheiros da Europa se aguenta isto mais um tempo e, depois, logo se verá.

Dizem as más línguas que o nosso primeiro-ministro já estará a estudar uma saída a Durão Barroso.

Uma nota final para o Norte e um elogio para Rui Moreira e a Associação Comercial do Porto. Ao assumirem o combate sobre o papel da TAP, em relação ao Aeroporto Sá Carneiro, vieram chamar a atenção para o completo desatino em que se encontra a companhia pública. Agora que já não temos o cineasta António Pedro Vasconcelos preocupado com os privados na empresa resta-nos os despedimentos e o fecho de linhas.

Aguardemos o fim da espuma dos dias pandémicos.

*Professor universitário de Ciência Política

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