Opinião

A humildade de esperar pelo voto

A humildade de esperar pelo voto

Nas campanhas eleitorais a ambição de todos os partidos é, naturalmente, reforçar o seu poder ou a sua capacidade de influência. E os 15 dias de debates nas televisões deixaram bem à vista qual é a estratégia de cada um dos que concorrem às eleições de 30 de janeiro.

António Costa quer libertar-se o mais possível das amarras da "geringonça", que ele próprio germinou em 2015, e a quem procura responsabilizar por umas eleições que, em seu entender, eram desnecessárias e inoportunas para o momento que o país atravessa.

A prová-lo está o facto de, ainda na pré-campanha, ter ousado abordar a palavra maldita que os políticos resistem a usar e para a qual se socorrem de outras formulações para evitar a expressão "absoluta". "Metade mais um", disse - ou seja, 116 deputados na Assembleia da República -, ou "uma maioria do PS que dê estabilidade", isto é, que o deixe o menos possível refém de negociações, como as que ditaram o chumbo do Orçamento do Estado para 2022 e que precipitaram as eleições.

A ambição do líder do PS, que assim dá o tudo por tudo para captar os votos dos eventuais descontentes com PCP e BE, levou-o até a catapultar para o estrelato o jovem partido PAN, com quem admitiu formar Governo, na esperança de que segure os quatro deputados eleitos em 2019. E já agora (embora não o tenha dito) que Rui Tavares do Livre, que é crítico da rutura da "geringonça" e defensor dos acordos à Esquerda, consiga ser eleito por Lisboa para ajudar nessas contas.

Se António Costa se fecha nesta aritmética, Rui Rio tem procurado manter mais portas abertas, não as fechando totalmente ao Chega que, apesar de considerar "instável", pode ser uma tentação para a possibilidade de a Direita conseguir chegar ao poder, aliando-se à extrema-direita, como sucedeu no Governo dos Açores.

PCP e BE, por seu lado, acenam com os perigos que podem advir de uma maioria absoluta do PS, procurando que o seu eleitorado não se zangue nem desmobilize.

Perante estes cenários, veremos quais as soluções que os eleitores vão preferir: se optam por se render ao discurso da bipolarização PS/PSD, ou se votam num Parlamento ainda mais fragmentado, que obrigue a mais negociação. Em qualquer destes cenários, não parece fazer muito sentido que António Costa tenha ido para o frente a frente com Rui Rio acenar com o Orçamento chumbado, como se fosse de antemão uma vitória ele já estar feito. É que, para entrar em vigor, terá de ser aprovado e ainda poderá obrigar a muita negociação. Humildade precisa-se.

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