Opinião

A importância de respeitar as palavras

A importância de respeitar as palavras

"Os cidadãos de 80 e 90 anos construíram o nosso país, o bem-estar com que vivemos foi construído por eles. Lutamos contra o vírus também por eles". A frase foi proferida por Angela Merkel - e lembrou-nos como é importante ter líderes que respeitem as palavras.

A vandalização da palavra foi um dos sinais de maior degradação do discurso político e do exemplo de liderança nos últimos anos. Levou a que, nos EUA, emergisse um presidente com um discurso infantil, em que tudo é "fantástico ou horrível", "maravilhoso ou péssimo", "grandioso ou muito mau". É uma linguagem binária, pobre, preconceituosa, que explora a dimensão simplista com que os seus apoiantes veem o Mundo: "nós" ou "eles", "estrangeiro" vs. "nacional".

Trump e Bolsonaro são os dois exemplos mais claros de como a linguagem hiperbólica se tornou dominante em segmentos que deixaram de querer ser esclarecidos com a verdade complexa e demorada e passaram a preferir as crenças rápidas e simples - mais confortáveis de aceitar.

O grande problema é que neste ambiente perverso passou a ser mais difícil explicar a realidade complexa. Isso ficou tão evidente nas últimas semanas: perante o surgimento improvável e inesperado da maior pandemia num século, milhões de americanos e brasileiros tardaram em assimilar a informação. Negaram. Não quiseram acreditar. "Não, isto não é nada". "É só uma gripe". "Eles estão a exagerar".

Até que as mortes começaram a crescer. E a crescer. E a crescer. E a crescer. E não, não dá para negar as mortes. Não, não dá para dizer que as mortes são "uma metáfora". Mortes são mortes, ponto. De tanto gritar que vinha aí o lobo, os "trumpistas" não conseguiram mesmo perceber quando apareceu o lobo a sério. É no que dá quando se aceita o inaceitável e se prefere a mentira "sexy" e rápida. Os populistas prometeram, nestes anos de sombra e confusão de conceitos, soluções rápidas e instantâneas - "I alone can fix it", eu sozinho consigo resolver isto, podia ler-se no "backdrop" da Convenção Republicana de 2016, que confirmou a nomeação de Trump.

O tempo pandémico que vivemos é tudo menos isso: exige paciência, complexidade, demora. É tudo menos o simplismo básico de ir atrás de quem promete rapidez providencial de ser um homem só a resolver tudo.

É esse o grande paradoxo: a pandemia chegou no momento em que um número incrivelmente grande de pessoas em países supostamente civilizados quiseram acreditar nas soluções fáceis e rápidas.

Agora têm de esperar. E muito. Como os outros.

*Analista de política internacional

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