Opinião

A Imprensa e os bolsonaros

A Imprensa e os bolsonaros

Marcelo Rebelo de Sousa foi claro na afirmação da necessidade de apoio público à Imprensa, sobretudo neste período de pandemia.

O presidente dedicou até parte do seu discurso do 25 de Abril a este assunto. António Costa mostrou agilidade e assumiu esta tarefa, criando uma medida excecional e temporária de aquisição de espaços para informação institucional.

Com pouca surpresa, lá fomos vendo umas abordagens boçais a considerarem que este apoio era uma promiscuidade, uma forma de controlo ou de condicionamento. De facto, nada de novo. A pandemia foi vista por alguns como a oportunidade de suspender responsabilidades ou apenas de erradicar a Imprensa plural. O raciocínio é conhecido: aproveita-se a pandemia para acabar com a Imprensa livre e ficamos nas mãos das redes sociais, das páginas piratas, dos perfis falsos ou das fake news que minam a democracia, aprofundam o populismo e fazem germinar o fascismo. Nada que os protobolsonaros não queiram.

A Imprensa falha algumas vezes; cede a tentações de julgamentos públicos, amplifica algumas estórias pelo sensacionalismo, tudo isso. É a vida. Mas a Imprensa é um pilar decisivo da democracia, é um instrumento de formação e de entretenimento, é um fator de pluralidade e de afirmação da pluralidade democrática. A Imprensa democratiza o conhecimento sem retorno significativo, permite acesso à informação de forma maioritariamente gratuita. Tem sido usada pelas grandes multinacionais da Internet para disseminar notícias e informação de forma universal e gratuita. Aqueles que pouco produzem canibalizam o trabalho jornalístico para valorizar pesquisas e reforçar conteúdos.

A imprensa não é, por isso, um negócio estritamente comercial. Ela produz serviço público da maior relevância, nela gravitam muitos dos maiores especialistas e com ela temos uma perceção plural e crítica da sociedade, do país e do Mundo.

Neste período de pandemia, todos perderam. A Imprensa também perdeu, diminuiu drasticamente vendas, perdeu muita publicidade, mas manteve-se viva e teve um papel fundamental na informação e na sensibilização, mostrando o seu inequívoco papel social.

O Governo tem tido um papel muito positivo nesta fase, assumindo medidas de apoio ao comércio, à indústria, às empresas em geral, às IPSS, a vários grupos e setores sociais, com lay-off, financiamentos ou apoios a fundo perdido. Naturalmente também o assumiu com a Imprensa, num plano de apoio que deverá ser reforçado, pois é insuficiente, sobretudo para a Imprensa escrita e para a Imprensa regional.

A democracia convive com os seus próprios inimigos. O fascismo erradica-os. Subtil, mas faz toda a diferença.

*Presidente Câmara Municipal V. N. Gaia

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