Opinião

A lição de geografia do prof. Marcelo

A lição de geografia do prof. Marcelo

Numa recente passagem pelo nordeste transmontano, o prof. Marcelo Rebelo de Sousa, ensaiando uma espécie de aula de geografia, fez um esforço incomum para localizar Trás-os-Montes no mapa usando estas palavras: "O país está dividido entre a Área Metropolitana de Lisboa e o resto. Depois, entre as outras áreas metropolitanas e o resto. Depois entre todo o litoral e o resto. Depois há dentro do interior o interior intermédio e o interior profundo. Dentro do interior profundo há o interior mais profundo. E é no interior mais profundo do interior profundo que encontramos Trás-os-Montes (...)".

Para um candidato a Belém, alentado pelas mais auspiciosas sondagens, é, no mínimo, salutar vê-lo reconhecer à partida a realidade que esta lição de geografia claramente denuncia. Isto porque o desenho do Quadro Comunitário deixado pelo anterior Governo afigura-se altamente desastroso para a região transmontana, como para outras de baixa densidade populacional. As assimetrias entre estas regiões e o litoral são cada vez maiores e o novo Quadro em nada atenuará tal fosso, sendo incompreensível que os critérios de distribuição dos fundos europeus em Portugal não estejam ao serviço do desenvolvimento regional, sabendo-se que os mesmos são, por natureza, fundos de coesão. Inconformada e consciente desta grande divergência com o verdadeiro fundamento dos fundos estruturais e comunitários, que põe em causa o seu Plano Estratégico de Desenvolvimento Intermunicipal para os próximos seis anos, a CIM dos autarcas de Terras de Trás-os-Montes fez já saber que vai reclamar as devidas correções ao Governo, e, caso não obtenha as respostas necessárias, queixar-se-á diretamente a Bruxelas. Na mesma linha, mas na ótica do apoio à investigação e à fixação de massa crítica, já se pronunciou também o reitor da UTAD, em artigo recente no JN, com a tónica de que os "fundos de coesão" servirão para garantir o funcionamento dos centros de investigação localizados em regiões mais dinâmicas do país, em prejuízo das instituições do interior. Neste contexto, falar-se de "coesão" é nada mais que uma falácia.

Por tudo isto, voltando à lição de geografia do prof. Marcelo, se "no interior mais profundo do interior profundo" hoje ainda encontramos gente, com este andar, encontraremos, não tarda, pouco mais do que aldeias fantasma.

*Escritor

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