Opinião

A realidade alternativa

A realidade alternativa

"Saber estar e romper a tempo, correr os riscos da adesão e da renúncia, pôr a sinceridade das posições acima dos jogos pessoais, isso é a política que vale a pena". Francisco Sá Carneiro

Nos últimos tempos, alguns líderes políticos procuram responder a situações de crise tentando inovar no seu discurso político. Independentemente de estar à Esquerda ou à Direita, o populismo tomou conta das agendas políticas, procurando introduzir uma realidade alternativa.

Essa realidade alternativa tem gerado aquilo a que se convencionou chamar notícias falsas. Essa realidade alternativa motiva, para o cidadão comum, interrogações a que as redes sociais procuram dar resposta criando os chamados "influenciadores" e os média, nomeadamente as televisões, criando programas para procurar avaliar se aquela afirmação é verdadeira ou não.

Tal como Lenine ou Goebbels, é mesmo preciso mentir várias vezes sobre uma ideia para a mesma se transformar, a seguir, em verdade. No tempo do PREC, em 1975, o boato era a arma da reação. Estas são as práticas recorrentes que os discursos populistas têm procurado impor.

A realidade alternativa que Trump, Bolsonaro ou Boris Johnson criaram a propósito da pandemia do coronavírus é um bom exemplo. Negaram sempre a importância da doença até ficarem contaminados.

Em Portugal, também temos destes fenómenos, cada vez mais recorrentes, na nossa vida política. Cada um afirma a verdade que lhe interessa. Afastando-se daquilo que é o interesse geral ou, como diria Rousseau, a "vontade geral" soberana do povo.

Quando nos aproximamos das eleições presidenciais esta realidade alternativa fica ainda mais evidente nos candidatos genuinamente populistas.

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Até lá, o candidato presidencial que vive em Belém só tem a ganhar se continuar a compreender o povo. O tal que não consegue viver no mundo da realidade alternativa. Afinal precisamos de comer todos os dias e este discurso do nacional-populismo não serve às nossas democracias liberais. Pelo contrário, parece aprofundar o surgimento de políticos cujo perfil o já falecido filósofo inglês Roger Scruton identificava, no título de um dos seus livros, como "tolos, impostores e incendiários".

No fundo, esta é a dialética que vivemos, desde 1820, entre os discursos populistas iliberais que, umas vezes pela Esquerda, outras pela Direita, parecem querer marcar a nossa vida partidária com os resultados económicos que todos conhecemos. Para responder a essa realidade alternativa temos de recordar Sá Carneiro e lembrar que só existe um tipo de política que vale a pena. A que se faz sempre acima do interesse pessoal.

*Professor universitário de Ciência Política

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