Opinião

As eleições, os partidos políticos e os portugueses

As eleições, os partidos políticos e os portugueses

A circunstância do momento eleitoral que vivemos, no quadro do início da aplicação do PRR e da crise pandémica que persiste em nos afetar gravemente, suscitou-me um conjunto de reflexões sobre a forma como os políticos e os partidos estão a apresentar as suas propostas para o futuro próximo, relativas à sua atuação parlamentar e governo executivo do país.

Sinto uma profunda frustração pela forma desconexa, incompleta e parcial como as ideias, propostas, objetivos e promessas nos são apresentadas, e algumas delas publicamente discutidas através da Comunicação Social. A ausência de visão sistémica subjacente a estas propostas é confrangedora e motivo de frustração para quem procura entender com seriedade o que concretamente está em jogo.

Considero que deveria ser obrigatório que os partidos apresentassem as propostas ao eleitorado enquadradas em cenários orçamentais plurianuais a quatro anos, objetivadas por medidas concretas com objetivos explícitos e temporizações associadas. Os partidos deveriam juntar às suas propostas, programas de atuação e correspondentes orçamentos, de forma semelhante, mas simplificada, ao que o Governo apresenta anualmente para aprovação pela Assembleia da República.

Desta forma, não só se facilitaria o entendimento pelos portugueses do que está em jogo nas escolhas eleitorais, mas também se permitiria a comparação entre as propostas apresentadas em bases objetivas, sujeitas todas elas ao mesmo condicionamento sistémico, qual seja, a clarificação do total dos recursos financeiros que se propõem utilizar, arrecadar, gastar e financiar via dívida pública, a partir da situação real do país nesse mesmo momento. Nesta conformidade, os desvios demagógicos, as promessas mentirosas, os devaneios irrealistas poderiam ser mais facilmente desmascarados pelos cidadãos, numa base objetiva e não ideológica.

E a avaliação posterior da forma como os vencedores das eleições cumpriram ou não cumpriram o proposto ao eleitorado no final do seu mandato poderia ser pública e objetivamente feita, reforçando os partidos e os políticos que cumprem o que se propõem fazer e penalizando a reputação e a credibilidade dos que não o fizerem.

Temos de criar condições para que na nossa democracia, os portugueses não continuem sistematicamente a ser enganados e tomados por parvos.

Professor catedrático distinto jubilado do IST e fundador e investigador emérito do INESC

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