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As falácias sobre o futebol

As falácias sobre o futebol

Em Portugal todos sabem porque é que as coisas acontecem e todos sabem como se resolvem depois de acontecerem. O problema é que muita gente trabalha em cima de uma série de falácias, resultado de generalizações perigosas.

A mais atual das falácias é a que culpa os comentadores-adeptos, que participam em programas televisivos, de tudo o que agora acontece. Saberão alguns dos leitores do JN que sou portista e participo no programa "Aposta tripla" da Sport TV+, com Pedro Adão e Silva, do Benfica, António Macedo, do Sporting, e o ex-jogador Pedro Henriques. É um programa civilizado, com pessoas que se respeitam no programa e fora dele, como é o da RTP ou o da SIC, muito longe da gritaria da TVI ou da CMTV. Logo à partida se percebe como podem ser perigosas as generalizações. Há programas em que as pessoas se insultam e gritam umas com as outras, passando para os restantes adeptos a ideia de que não pode haver tolerância com os adversários? Há! Mas não são a maioria, longe disso. E o que aconteceu em Alcochete pode ser imputado aos tais programas grotescos? Não me parece. Se eles incendeiam almas é de adeptos de um clube contra adeptos de outro clube e não de adeptos de um clube contra os seus próprios jogadores.

Falácia é igualmente considerar que denunciar a batota de adversários ou discutir os erros dos árbitros é fazer um discurso que apela à violência. A razão por que se gosta sempre de um clube é porque a paixão é irracional e permite que uns vejam penáltis onde eles não existem e outros não os vejam quando eles são flagrantes. Ainda assim, a larguíssima maioria dos adeptos que levam o futebol a sério não o levam tão a sério que o deixem condicionar a sua vida. Lá em casa somos portistas e benfiquistas, na família alargada há portistas, benfiquistas, sportinguistas e até um leixonense. Entra os amigos, há gente de muitos outros clubes. Muitas vezes discutimos o jogo jogado e as arbitragens. Nunca nos chateámos, nunca faltámos ao respeito uns aos outros.

É também uma falácia considerar que cada vez que um clube tem os holofotes dirigidos sobre si, isso é um problema do futebol português. Outra generalização perigosa. Se adeptos de um clube agridem os seus jogadores ou se outro está a ser investigado porque a revelação de emails denuncia a alegada prática de corrupção, isso não faz de todos os outros clubes culpados. De igual forma, é uma falácia apontar o dedo ao clube, não percebendo que essas práticas definem os dirigentes que estiverem em funções e não a história do clube ou os seus adeptos.

Outra falácia é considerar que as claques de futebol transformam os adeptos em "hooligans". Nas claques, os adeptos violentos e criminosos são primeiro violentos e criminosos fora do universo do futebol. A larga maioria dos que já foram condenados, praticaram crimes que nada têm a ver com o futebol. Se fosse de facto obrigatório legalizar todas as claques, talvez se pudesse avançar com a ideia de que era preciso ter o cadastro limpo para ser membro de uma claque.

A mais perigosa das falácias é, no entanto, a que vê no futebol um antro de gente perigosa, com adeptos imbecis e dirigentes corruptos. Por isso, há quem defenda que a política se deve afastar do futebol. Há adeptos imbecis e dirigentes corruptos? Há, sabemos que sim. Mas é por isso que os eleitos do povo se deviam preocupar mais com o estabelecimento de regras que balizassem a irracionalidade da paixão futebolística. E o Mundo fica mais perigoso com o populismo. Não me esqueço quando, em 2001, Rui Rio passou a ser "persona non grata" no F. C. Porto. Eu era editor de política na TSF e perguntei a Durão Barroso se não temia perder votos no Porto por causa desse conflito. A resposta foi: "Os votos que possa perder no Porto serão compensados pelos votos que o PSD vai ganhar no resto do país" que é contra o F. C. Porto. O PSD ganhou as eleições. Ainda conseguem dizer que o futebol é que é perigoso?

FALÁCIA: AÇÃO DE ENGANAR COM MÁ INTENÇÃO. SOFISMA OU ENGANO QUE SE FAZ COM RAZÕES FALSAS OU MAL DEDUZIDAS, IN DICIONÁRIO PRIBERAM DA LÍNGUA PORTUGUESA.

PAULO BALDAIA, JORNALISTA

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