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Cancro do pulmão: fazer mais

Cancro do pulmão: fazer mais

Na luta contra o cancro do pulmão, Portugal não está mal - o acesso a medicamentos inovadores em tempo útil tem sido uma realidade e todos os atores do sistema de saúde parecem estar a convergir nos mesmos objetivos.

Invariavelmente, quando se falava em cancro do pulmão as notícias eram negativas. Esta é uma das neoplasias mais frequentes e é, em Portugal, a primeira causa de morte por doença oncológica. Anualmente, são diagnosticados cerca de 4000 novos casos e 3500 pessoas perdem a vida devido a esta doença.

As razões são várias: o aumento do consumo do tabaco entre os jovens e as mulheres e o facto de quase 70% dos casos cancro de pulmão serem diagnosticados tardiamente, quando já estão em fases avançadas, podem ser apontadas como as principais.

No entanto, nos últimos anos têm surgido medicamentos inovadores que prolongam substancialmente a quantidade de vida destes doentes e melhoram significativamente a sua qualidade de vida - terapia dirigida a alvos moleculares do tumor e a imunoterapia oncológica são disso exemplos.

Mas para que o advento destes novos medicamentos tenha uma tradução prática no quotidiano dos nossos doentes é necessário que eles estejam disponíveis no armamentário terapêutico do SNS e que haja equidade na sua acessibilidade.

Nas últimas semanas, tivemos mais uma excelente notícia. Um relatório do Institute of Health Economics (IHE), da Suécia, revelou que, em 31 países europeus, Portugal está entre aqueles com melhor acesso aos tratamentos inovadores para o cancro do pulmão.

O documento, com o título "Comparação de acesso dos doentes aos medicamentos para o cancro na Europa", começa, também, pelas más notícias: um aumento constante da incidência do cancro em toda a Europa em aproximadamente 30%. No financiamento, o cenário também parece menos bom: Portugal gasta no tratamento do cancro apenas cerca de 3,9% do seu PIB gasto em saúde. Só a Noruega e a Finlândia gastaram menos do que nós. Vários outros países investem percentagens bastante superiores, mas se quisermos ficar pela média europeia, o valor de comparação é de 6%.

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Agora o positivo: apesar de haver cada vez mais doentes, tem-se conseguido incrementar significativamente a sua sobrevivência aos 5 anos depois do diagnóstico. E apesar de termos mais casos de doença oncológica e sobrevivências mais prolongadas, não existe ainda um aumento dramático na despesa com o seu tratamento.

Acresce a estes factos que entre 1995 e 2005 foram aprovados, a nível europeu, dez novos medicamentos para o cancro do pulmão. Em termos de inovação terapêutica, estas duas décadas foram férteis devido ao crescente conhecimento que temos do cancro e dos seus mecanismos de ação. O IHE olhou para três medicamentos inovadores, todos aprovados depois de 2000 - Portugal aparece entre os países que mais usaram estes medicamentos mais recentes, juntamente com a Eslováquia, França e Suíça.

Em termos de inovação terapêutica, têm-se sucedido as boas notícias: cada vez sabemos mais sobre o cancro e como se desenvolve e temos mais armas para o seu tratamento. Isto resulta numa evolução notável do tratamento, com o aparecimento de terapêuticas individualizadas e, recentemente, a Imuno-Oncologia que permite que seja o próprio sistema imunitário do doente a lutar contra o cancro. Temos mais doentes a viver mais tempo com doença oncológica e com qualidade de vida.

Mas o entusiasmo pela inovação terapêutica é muito refreado pelo custo que representa e a necessária negociação entre Estado e Indústria Farmacêutica para conseguir que fique disponível ao maior número de doentes a valores comportáveis para o sistema de saúde. Estes dados europeus são, claro, extremamente positivos. Demonstram que a necessária sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde não é impeditiva de que os doentes tenham acesso à melhor terapêutica disponível. Enquanto médico e diretor de um serviço de oncologia, enquanto responsável por uma associação de doentes, é impossível não ficar satisfeito.

No entanto, é imperativo que este progresso se mantenha e que todos os atores - médicos, farmacêuticas, decisores, pagadores e doentes - continuem num diálogo franco para prosseguir neste caminho, o de se disponibilizar a inovação terapêutica em tempo útil, equitativamente a quem dela necessita e a um preço que seja comportável para o país.

* DIRETOR SERVIÇO DE ONCOLOGIA MÉDICA,, CENTRO HOSPITALAR DO PORTO

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