Opinião

Combater o terrorismo com cultura

Combater o terrorismo com cultura

O primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, surpreendeu o Mundo com o anúncio de uma medida peculiar de luta contra o terrorismo: dos dois mil milhões de euros destinados a esse combate, mil milhões irá para segurança e defesa e outro tanto para a cultura. Nunca em sítio algum dois universos, de âmbitos tão desnivelados, foram enfrentados com a mesma energia, no caso com a mesma energia financeira. O certo é que, ao crescer em Itália a preocupação de que o país poderá ser um dos alvos europeus das ações terroristas do Estado Islâmico, redescobre-se na cultura uma das tábuas de salvação dos dramas da sociedade moderna.

Anuncia-se assim a implementação de programas culturais visando os bairros das periferias das grandes cidades com problemas de desinserção social e onde com mais frequência acontecem confrontos entre locais e emigrantes, e incluindo-se a distribuição de cheques de 500 euros a cada jovem de 18 anos para gastarem em cultura, podendo aplicá-los nas idas a teatros, concertos e museus. Procura-se, desse modo, que estes jovens venham a ser os "guardiões" da memória e da herança cultural coletiva. Em boa verdade, estar-se-á perante uma "guerra cultural", quando Matteo Renzi, face aos grupos extremistas que semeiam o terror e destroem estátuas e livros, declara querer enfrentá-los com ações culturais de amor à arte, e reafirmando Itália como o "país das bibliotecas". Esta determinação vem, de resto, na linha do apelo lançado há meses pela diretora-geral da UNESCO, Irina Bokova, desde a Universidade de Bagdad, exortando os jovens para que usem todos os meios ao seu alcance, especialmente as redes sociais, no combate à campanha de "limpeza cultural" lançada pelo Estado Islâmico na destruição de museus, estátuas e sítios arqueológicos, grande parte relicários coletivos classificados como Património Mundial.

Encarada na sua dimensão mais pragmática, a cultura sempre foi e sempre será uma forma de arrumar o caos, ainda que esse caos habite nos instintos mais primários da natureza humana. Comprometer os jovens e exortá-los a serem agentes desse equilíbrio é uma das atitudes mais sábias a tomar pelos novos regimes. E que Portugal, que continua o país da Europa com menores taxas de participação em atividades culturais, tome boa nota disso e desperte também para este desafio.

ESCRITOR

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG