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Opinião

Comoção tardia não é boa conselheira

Comoção tardia não é boa conselheira

Há nove meses tivemos a notícia de um crime hediondo nas instalações do SEF, força que tem por missão garantir a lei, a ordem e a segurança pública. Mas, na altura, o caso não causou comoção e revolta no país.

Quando foi tornada pública a suspeita morte de Ihor Homenyuk, poucos lamentaram o sucedido e pediram explicações aos responsáveis políticos. Em março e abril, as notícias sobre o crime não fizeram manchetes, a opinião pública não se insurgiu e o debate político não efervesceu.

Esta tímida indignação pública e estranha letargia política poder-se-iam justificar com a pandemia. De facto, a crise sanitária tem tido um efeito eucalipto sobre quase todos os outros acontecimentos, concentrando muita da atenção pública e do debate político. Com a agravante de o crime ter ocorrido, precisamente, no mês em que foi decretado o primeiro estado de emergência.

Acontece que, pouco tempo depois, em maio, um outro abuso da autoridade policial - o homicídio de George Floyd, nos EUA - provocou forte consternação em Portugal. Bem sei que a cobertura mediática deste caso foi mais exaustiva e com imagens de extrema crueldade. Ainda assim, parece-me pouco justificável a dualidade na reação pública aos dois acontecimentos. Enquanto a morte de Homenyuk foi rapidamente esquecida, o assassinato de Floyd motivou manifestações, vigílias e acesos debates.

Conclui-se, pois, que é mais fácil condenar os atropelos ao Estado de direito ocorridos noutro país do que fazê-lo em relação ao nosso. Muitos dos que verberaram, e bem, o homicídio de Floyd mantiveram-se mudos e quedos quando se tornou público o sinistro episódio no SEF e são hoje, tardiamente, os justiceiros exemplares que tudo querem sentenciar, por antecipação ao curso normal da justiça.

Os que foram tão afoitos a criticar a violência policial num país terceiro, mas que reagiram extemporaneamente a igual brutalidade no seu próprio país, deviam fazer um exame de consciência antes de criticarem o nosso sistema de segurança pública e as suas forças. Este complexo de culpa coletivo não será certamente bom conselheiro no julgamento político do caso SEF, nem nas diligências a efetuar para que não se repitam situações idênticas.

Reitor da Universidade do Porto

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