Opinião

Costa, o provocador das esquerdas

Costa, o provocador das esquerdas

1. Quem tem seguido a retórica socialista desde a posse do Governo identifica que António Costa tem um guião que pretende seguir pelo menos até às autárquicas, em outubro de 2021. O seu propósito é utilizar uma linguagem provocadora aos partidos à sua Esquerda, de forma a manter os seus antigos parceiros em permanente tensão.

Este é o tom que o primeiro-ministro tem dado para a sua orquestra interna, e que a plateia externa aplaude. É claro que bloquistas e comunistas se contorcem nas cadeiras do camarote. Enquanto Catarina Martins engole em seco e faz de conta que não percebe, Jerónimo de Sousa mantém a coerência discursiva com os objetivos do seu partido.

2. Ora, sendo certo que Costa só pode sobreviver no Parlamento com o apoio de um destes dois partidos, as suas ferroadas têm um objetivo muito concreto: ir progressivamente encurralando o BE e o PCP, forçando-os a sustentar o Governo para não permitirem que a opinião pública os acuse de radicalização à Esquerda.

Ou seja, o primeiro-ministro definiu, pelo menos para já, a tática do seu jogo de snooker privilegiando as tabelas, para vencer o primeiro "frame" no início da legislatura. Ao tentar demarcar-se de políticas radicais de Esquerda, António Costa quer consolidar a imagem de um PS charneira, que aposta no Centro, onde se concentra o eleitorado mais moderado.

3 .Para os cidadãos menos esclarecidos este jogo de António Costa pode parecer genuíno e sincero. Mas não é. Quem conhece o seu percurso histórico desde a juventude sabe que ele sempre se afirmou nas alas mais à Esquerda do PS. Por isso, esta sua capa de hoje é apenas um fetiche de ilusionismo ideológico, para travar futuros ganhos eleitorais do PSD.

Na hora em que António Costa tenha de fazer opções claras entre políticas de Esquerda ou moderadas, ele fará jus à sua costela de sempre. E mais cedo que tarde, isto mesmo será comprovado no Parlamento. Basta aguardar pela posição dos socialistas no pacote já anunciado das designadas "causas fraturantes" que a Esquerda radical vai levar a plenário...

Professor universitário e investigador do CEPESE (UP)