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Opinião

Dar valor aos professores

Dar valor aos professores

Em Portugal, os professores ocupam os lugares mais elevados nos rankings de confiança, o que acompanha as tendências internacionais. Quando, no nosso país, há um desvio da média, é sempre positivo: os portugueses confiam ainda mais. Isso é válido quando os inquiridos são as famílias, o cidadão anónimo ou os alunos e confirmado por estudos, como o de 2008, da "Gallup", feito para o Fórum de Davos, e outros, mais recentes, como o da Readers Digest (Profissões de Confiança, 2015) ou o da GfK Verein (Confiança nas Profissões, 2016).

Também recentes relatórios divulgados pela OCDE contêm referências elogiosas aos professores. É o caso do Relatório do PISA (reconhecendo o trabalho dos professores portugueses como decisivo para a franca melhoria dos resultados) ou o que confirma ser Portugal o país que mais está a eliminar os maus resultados dos alunos. Até do que conclui que os melhores alunos não querem ser professores se infere que o motivo não são os seus professores, pois neles depositam grande confiança, sendo por si muito valorizados. Invariavelmente, os estudos colocam no fundo da tabela os que não perdem uma oportunidade para desvalorizar os professores, com políticos e advogados à cabeça, ou melhor, na cauda.

Por que razão os portugueses confiam tanto nos seus professores, desvalorizando a retórica que pleiteia contra estes? A resposta parece óbvia: os portugueses conhecem os professores concretos, das escolas dos seus filhos e familiares, aqueles que fazem um tremendo esforço, muito para além do que os deveres profissionais exigiriam, para apoiarem os seus alunos. Um esforço que, por norma, não se limita ao envolvimento empenhado na escola, estendendo-se à vida pessoal, quando se veem privados da família durante longos períodos, por estarem colocados a centenas ou milhares de quilómetros de casa, ou quando privam os próprios filhos de mais atenção, pois, em casa, passam horas/dias a trabalhar para os seus alunos e para a escola.

O professor é ator fundamental no palco em que exerce atividade: a escola. Não será fator determinante do desempenho dos alunos, pois, como também confirmam inúmeros estudos, é o contexto social, económico e cultural que melhor o explica. Contudo, na escola, o professor tem a grata missão de potencializar o que de melhor existe em cada aluno para, nuns casos, ir ainda além dos bons resultados escolares e, em outros, ultrapassar obstáculos que pareciam intransponíveis. Isto acontece porque, como também é reconhecido internacionalmente, é enorme a sua capacidade de resposta às necessidades específicas dos alunos, sabendo diferenciar a sua ação.

Trata-se de um quadro idílico sobre a profissão de professor? É claro que não. Ainda que os estudos apontem para estas conclusões, ninguém esquece que o corpo docente é constituído por homens e mulheres que, tal como todos os outros, têm virtudes e defeitos. Isso é da vida. Da vida humana. Mas as exceções negativas não legitimam a generalização, nem acusações injustas e falsas, logo, difamatórias.

A escola, porém, não está imune às tensões e crises sociais que a atravessam e têm reflexo no exercício da atividade docente. Constrangimentos vários, impostos por políticas contrárias ao interesse da Educação, têm dificultado um ainda melhor trabalho dos professores, deles sobressaindo aspetos como a instabilidade, a sobrecarga horária e de tarefas, a atividade burocrática, o envelhecimento ou, até, o afastamento dos níveis de decisão, hoje cada vez mais reduzidos ao "querido líder".

Goste-se ou não, os professores constituem o elemento-chave da mudança a operar no sistema educativo, logo, também na sociedade, razão por que, como vem afirmando a FENPROF, se impõe "libertar a profissão docente de todos os constrangimentos, administrativos e outros, de modo a tornar o seu exercício atrativo e motivador, assente numa prática cientificamente fundamentada e tecnicamente bem executada no quadro de uma responsabilidade ética por todos reconhecida". Se for esse o caminho cumprir-se-á o desígnio de Paulo Freire: "Educação não transforma o Mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o Mundo". Será esse o medo dos que parecem não dar valor aos professores.

SECRETÁRIO-GERAL DA FENPROF