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Doação do coração de D. Pedro IV à cidade do Porto

Doação do coração de D. Pedro IV à cidade do Porto

Para se perceber o simbolismo profundo da doação do coração de D. Pedro IV à cidade, pelo próprio, é necessário recuar à revolução liberal de 24 de agosto de 1820 e recordar a oposição radical entre liberais e absolutistas que varreu a sociedade portuguesa durante grande parte do séc. XIX, mas sobretudo depois daquela primeira vitória do liberalismo. A impossível conciliação entre as partes e o evoluir dos acontecimentos proporcionaram a recuperação aos absolutistas liderados pelo irmão D. Miguel. No contexto dessa luta encarniçada, a 8 de julho de 1832 D. Pedro desembarcou na praia de Pampelido à frente do exército liberal, no propósito de restituir à filha Maria o trono de Portugal, usurpado pelo tio D. Miguel. Tendo logrado entrar na cidade no dia seguinte, de imediato foi cercado pelas tropas absolutistas, dando-se início ao decisivo Cerco do Porto.

As circunstâncias dramáticas do Cerco favoreceram uma enorme empatia entre D. Pedro e os habitantes. A coragem do duque de Bragança, que o levou a pôr em risco a vida, conquistou os corações dos tripeiros. Por sua vez, D. Pedro pôde sentir a generosidade e a sinceridade da devotação dos portuenses à sua pessoa e à causa da Liberdade que ele oferecia. Os homens e as mulheres do Porto não mais esqueceram a bravura do rei que ao seu lado se fez soldado. Mais tarde, ergueram-lhe uma estátua no coração da cidade, no sítio onde em 1829 doze nobres cidadãos haviam padecido o martírio pela mesma causa.

A doação inusitada do duque de Bragança deve entender-se no contexto da cumplicidade da luta pelo direito e pela liberdade. Corações por Coração. A entrega da preciosa relíquia à igreja da Lapa em 7 de fevereiro de 1835 não significou apenas o alimento da saudade, como sucede com os túmulos. A Irmandade reuniu fundos para que, com o seu rendimento, durante décadas, no dia 24 de setembro de cada ano, a população se reunisse na sua igreja para sufragar a alma do herói, para venerar o seu coração e para alimentar o amor pela liberdade. O pregador das exéquias, sempre um famoso orador sagrado, sabia que um dos temas obrigatórios era o da liberdade oferecida por D. Pedro mas também o das liberdades e o da liberdade, pela qual os do Porto, desde os tempos medievais, não cessaram nem podem deixar de lutar. A liberdade, afinal, é um bem precioso sempre ameaçado...

Mas há outro significado que não pode esquecer. A outorga do coração do homem que proclamou a independência do Brasil tornou-se um elo indestrutível da fortíssima ligação histórica do Porto ao país irmão.

* HISTORIADOR E MESÁRIO DA IRMANDADE, N.ª S.ª DA LAPA

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