Opinião

Editorial: A nova vida da geringonça com mais parceiros

Editorial: A nova vida da geringonça com mais parceiros

Um Parlamento mais fragmentado e com nove partidos, no que tem de positivo pela diversidade e de preocupante pela chegada à casa da Democracia da tradição populista e demagógica da extrema-direita europeia, a que até aqui esteve imune. O centro-direita em ebulição, mas com Rui Rio a mostrar a resiliência de que é feito, e Assunção Cristas a abandonar a liderança do CDS. E o Partido Socialista com uma vitória inequívoca, mas a quem o eleitorado não quis dar a maioria absoluta.

Do que resulta mais certo da longa noite eleitoral é que o PS, com mais deputados do que a soma de toda a Direita, tem plenas condições para formar Governo. À sua Esquerda, os partidos que suportaram a solução da passada legislatura já têm caderno de encargos, claramente definido por PCP e pelo BE, com Catarina Martins a ir ainda mais longe: ou chega a acordo, em matérias como a revisão da legislação laboral e a privatização dos CTT, ou negoceia ano a ano. Orçamento a Orçamento.

Perante este cenário, António Costa tem de fazer uma escolha, mais fácil do que a que tomou em 2015, e para a qual não lhe falta habilidade política, nem um Parlamento em que a Esquerda tem uma maioria absolutamente inequívoca.

Ou quer conduzir uma solução de governo para quatro anos, contando com a disponibilidade do Bloco de Esquerda a um preço elevado, mas um Partido Comunista fragilizado e sem espaço de manobra, aberto apenas a acordos pontuais. Ou quer um governo de combate, com o Orçamento a passar este ano e provavelmente para o próximo, quando Portugal detém a presidência rotativa da União Europeia, e prepara-se para o risco de eleições antecipadas no final de 2021.

O grau de governabilidade depende, portanto, ao mesmo tempo do espaço que quiser ter para negociar à Esquerda, com o novo grupo parlamentar do PAN e a deputada do Livre, e a estabilidade política que daí advier e sem a qual Mário Centeno dificilmente conseguirá aplicar a receita dos últimos quatro anos.

É também face a este quadro e à geografia variável no tempo e nos acordos que o papel do presidente da República se alarga, exigindo de Marcelo Rebelo de Sousa o magistério de influência em público, mas sobretudo em privado, num período em que os partidos de centro-direita enfrentarão novos desafios.

Sobra uma última e séria nota destas legislativas. A taxa de abstenção sobe eleições atrás de eleições, o que diz muito do distanciamento dos eleitores, motivado, em parte, pela sucessão de casos e de polémicas. E não basta o lamento, sob risco de a falta de dignificação da ação política colocar cada vez mais em causa o exercício da Democracia.