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"Em terra de doutores"

"Em terra de doutores"

Consumou-se recentemente a reclamação dos politécnicos sobre a outorga de doutoramentos pelos referidos institutos. Inédito? Nem por sombras. Adivinhe o leitor há quanto tempo instituições como o IST e outros argumentaram a favor dessa prerrogativa? 40? 50 anos? Errado. Faz precisamente este ano - espante-se - 100 anos! Um século de avanços e recuos, de promessas e hesitações face ao que se impusera como exclusivo arcaico de Coimbra, das borlas e capelos da cidade do Choupal, entre todas a mais cobiçada na arte da reverência e do lisonjeio social: qualquer cara nova que assomasse às portas do "Rápido" na Estação Velha era logo mimoseada com um embevecido "ó senhor doutor!". Depois, universidades em Lisboa e Porto foram alargando o grau de doutor a um número crescente de áreas. De facto, o tempo longo da história, que normalmente define as atitudes mentais e culturais, refulge aqui com toda a sua magnitude. Um século é pouco menos que a idade de Matusalém, ainda que saibamos que o dito-por-não-dito é o menu preferencial da gestão da res publica...

Em abril de 1918, o Governo liderado por Sidónio Pais iria dar sequência à concessão de doutoramentos pelo Instituto Superior de Agronomia e Escola de Veterinária. Logo, o Instituto Superior de Comércio e o Instituto Superior Técnico reclamariam a atribuição desse mesmo grau, após a hesitação dos prévios executivos republicanos. O IST sonhava com o título "pelo menos honorífico" de doutor para os seus engenheiros.

Era Alfredo Magalhães, ministro da Instrução Pública e, convenhamos, o momento político era tudo menos propício a experiências pedagógicas. Nesse mês de abril de 1918, as forças do Corpo Expedicionário Português seriam chacinadas na Batalha de La Lys - o maior pesadelo bélico da nossa modernidade castrense - sem que o Governo português concretizasse o envio de reforços ou a devida manutenção do CEP.

Servimo-nos do título de "A Capital", o diário republicano da noite, que ilustra a crónica das solicitações dos institutos feitas à tutela. Aproveitava o periódico para desenhar um esboço da alma lusitana e do "povo onde todos são doutores", tal como em Itália são "tutti marquesi"... Arguia o jornal que as sucessivas remodelações de cursos não deveriam ser feitas "por antiguidades enxertadas em modernismos contraditórios", mas com base numa "remodelação basilar em todos os ramos da ciência".

Nestas esquinas da história encontramo-nos amiúde como Proust à "procura do tempo perdido".

* HISTORIADOR