Legislativas 2022

Editorial: Estabilidade absoluta

Editorial: Estabilidade absoluta

Depois de seis anos de governação, dois anos de pandemia e uma campanha errática, António Costa conseguiu o que só timidamente ousou pedir. A vitória do líder socialista é esmagadora e mostra uma escolha inequívoca dos portugueses pela estabilidade. Aos vaticínios de cansaço e desnorte na estratégia, o PS respondeu com um resultado que dispensa negociações, esmagando os partidos à sua esquerda.

A governabilidade foi a palavra mais ouvida na campanha, mas afinal não houve pântanos nem berbicachos. Marcelo Rebelo de Sousa nem sequer assumirá o protagonismo que se antevia no apoio à formação de compromissos claros. Quando muito terá, a acreditar no prognóstico tecido pelo primeiro-ministro em campanha, o papel de moderar eventuais excessos ou tentações de poder.

PCP e BE queixaram-se da bipolarização, mas é difícil ler nas quedas abruptas outra coisa que não seja o cartão vermelho mostrado pelos eleitores ao chumbo do Orçamento. O argumento fica esgotado olhando a fragmentação à Direita, onde nem o vislumbre das sondagens a anunciar mudança de ciclo conduziu à lógica do voto útil. Depois de seis anos em que tiveram um papel efetivo na discussão de políticas, comunistas e bloquistas voltam à condição de oposição e Os Verdes saem mesmo do Parlamento.

A acabar de sair de uma luta interna, o PSD volta a discutir a liderança. Quando parecia destinado a vencer, mesmo derrotado, Rui Rio acaba por ser vítima do elevar de fasquia na última semana, embalado por sondagens promissoras. Não teve trunfos para se aproximar de António Costa e sofreu com os estilhaços de uma Direita completamente reconfigurada. A Iniciativa Liberal confirmou a posição de futuro, condenando o CDS ao eclipse.

Quanto ao Chega, sentou-se no tão desejado terceiro lugar e mostrou bases sustentadas em vários distritos, numa perigosa malha territorial. E se a diminuição da abstenção em tempo de pandemia, tal como a diversificação de partidos com eleitos, é um sinal de vitalidade democrática, em sentido contrário está o crescimento do apoio ao discurso xenófobo, intolerante e populista. Com uma bancada de dois dígitos, André Ventura ganha tempo de antena e uma legitimidade que deve inquietar todos os que valorizam a tolerância e a igualdade.

O tempo é, agora, de humildade dos derrotados. É impensável a alarvidade de declarações como a da deputada Isabel Meireles, para quem "o que falhou foi o povo português". É o tempo, também, da humildade de quem, sendo absoluto, terá de evitar ser arrogante. António Costa deverá governar em compromisso com os portugueses, merecendo a confiança que lhe foi entregue. E tendo a ousadia de construir um caminho de reformas e de desenvolvimento que tem agora todas as condições para trilhar. Só assim estará à altura da escolha do país.

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