Opinião

Estabilizadora emocional

Estabilizadora emocional

Maria da Ascensão estava tranquila em Seia dando aulas, exercendo uma respeitável profissão e tendo o adequado prestígio e reputação local.

Eis senão quando o seu marido Licínio decide ir para Lisboa em acumulação da presidência da Caixa Agrícola da Serra da Estrela com a Caixa Central. Estranha acumulação que um regulador viria a pôr em causa.

Ele exige que ela passe de professora a estabilizadora emocional e cria no seu banco a nova atividade com a óbvia concordância do Conselho de Administração e de um tal exigente e perspicaz Conselho Superior de Supervisão. Esta nova missão é a tempo inteiro e inclui, sem reservas nem recusas, serviço diário a toda a hora, dia e noite, feriados e fins de semana. E numa condição de o serviço ser prestado ao presidente do Crédito Agrícola, seu marido há 36 anos. Mas sem ela ter que ir ao banco.

Sabe-se que isto implica total disponibilidade para o ouvir, aconselhar e serenar nos momentos de exaltação, tudo por uns míseros dois mil euros por mês, provavelmente sujeitos a IVA, mas com os descontos para o IRS e para os deveres sociais. E se ao menos isto contasse a dobrar para reforma, mas nem isso.

Convenhamos que preparar indumentárias que garantam as devidas emoções estáveis, ir a novos cabeleireiros da cidade da capital, diferentes dos da Serra da Estrela, calçar do melhor e estar presente no chá das cinco tantas e tantas vezes, por dois mil euros, é manifestamente pouco.

Um banco que deveria funcionar democraticamente, com o espírito de uma verdadeira cooperativa, com os melhores e mais competentes, por iniciativa do seu presidente e com o beneplácito dos que deles dependem transformou-se num caso risível que os seus clientes e colaboradores não mereciam.

* Agricultor